"O carácter é como uma árvore e a reputação como a sua sombra. A sombra é aquilo que nós pensamos do carácter de alguém e a árvore é a coisa mesmo, the real thing".
18/11/05
Cartas
Por vezes surgem notícias maravilhosas. Não aquecem o organismo. Servem acima de tudo para contornar o núcleo de certas animosidades cuja resolução vamos adiando. Quer por vontade própria, quer por forças exteriores incontroláveis. O lançamento de um livro que reúne cartas escritas por António Lobo Antunes à sua mulher durante a guerra colonial é objecto de interesse total.
- Ouviste o que disse o aquecedor?
- Como?
- Repara na luz. Repara como muda de intensidade... Está a dizer qualquer coisa!
- Mas isso é um aquecedor, não fala!
- Shut!... Não ouves o murmúrio?... Está a dizer qualquer coisa!
- Mas isso é o barulho da electricidade a passar...
- Shut!... Escuta!...
- Deixa - te de tretas. Vamos embora!
- Não posso
- Não podes?!?...
-Tenho de ficar ao pé da luz. Está a querer dizer - me qualquer coisa! É importante!...
- Importante?!? Ainda acabas na casa amarela a apanhar choques eléctricos...
- Pois, eu acho que que há aqui uma entidade qualquer, um ser de outra dimensão, uma energia cósmica, a tentar estabelecer contacto comigo... Repara no cintilar, nas pequeninas explosões de luz.. Isto não é electricidade!
- Não! Isso não é electricidade... São miolos a fritar!
- O quê?
- Disse que tens os miolos a fritar. Deve ser do calor...
- Por acaso estou cheio de frio!... Não queres ligar o aquecedor?
- Mas tens o aquecedor no máximo! Nem sei como não te queimas, aí tão perto...
- Shut!... Escuta!...
- Bom, vou - me embora! Depois conta - me o que te disse o ET...
Mão Morta in gumes (Nus - 2004)
- Como?
- Repara na luz. Repara como muda de intensidade... Está a dizer qualquer coisa!
- Mas isso é um aquecedor, não fala!
- Shut!... Não ouves o murmúrio?... Está a dizer qualquer coisa!
- Mas isso é o barulho da electricidade a passar...
- Shut!... Escuta!...
- Deixa - te de tretas. Vamos embora!
- Não posso
- Não podes?!?...
-Tenho de ficar ao pé da luz. Está a querer dizer - me qualquer coisa! É importante!...
- Importante?!? Ainda acabas na casa amarela a apanhar choques eléctricos...
- Pois, eu acho que que há aqui uma entidade qualquer, um ser de outra dimensão, uma energia cósmica, a tentar estabelecer contacto comigo... Repara no cintilar, nas pequeninas explosões de luz.. Isto não é electricidade!
- Não! Isso não é electricidade... São miolos a fritar!
- O quê?
- Disse que tens os miolos a fritar. Deve ser do calor...
- Por acaso estou cheio de frio!... Não queres ligar o aquecedor?
- Mas tens o aquecedor no máximo! Nem sei como não te queimas, aí tão perto...
- Shut!... Escuta!...
- Bom, vou - me embora! Depois conta - me o que te disse o ET...
Mão Morta in gumes (Nus - 2004)
Irrelevâncias
Alguém de seu nome Francisco Louçã esperava ansiosamente pelo derramamento de sangue nacional algures num país distante. É agora. A oportunidade de sublinhar que estava contra as orientações militares portuguesas. Ele e o seu rebanho têm um momento único de brilhar. Uma morte que poderá significar votos para a candidatura presidencial do partido em causa.
A preocupação, creio, não passa pelos 0,3%. Esta situação poderia ser solucionável. Mas não. Portugal tem um conjunto de cartas onde os trunfos já há muito foram deitados para cima da mesa. Se Portugal fosse uma empresa já teria sido alvo de uma OPA.
Julgo que as greves num país funcionam como um barómetro de popularidade para um governo. Por outras palavras, os resultados práticos são inexistentes. Ainda por cima num governo de maioria absoluta. No fundo os trabalhadores fazem um regresso ao passado quando as escolas organizavam passeios para quebrar a rotina. A diferença é que agora aparecem na televisão.
A preocupação, creio, não passa pelos 0,3%. Esta situação poderia ser solucionável. Mas não. Portugal tem um conjunto de cartas onde os trunfos já há muito foram deitados para cima da mesa. Se Portugal fosse uma empresa já teria sido alvo de uma OPA.
Julgo que as greves num país funcionam como um barómetro de popularidade para um governo. Por outras palavras, os resultados práticos são inexistentes. Ainda por cima num governo de maioria absoluta. No fundo os trabalhadores fazem um regresso ao passado quando as escolas organizavam passeios para quebrar a rotina. A diferença é que agora aparecem na televisão.
Século XXI?
Para quem tem saudades dos tempos em que as ideias contrárias ao pensamento dominante eram alvo de represálias então acedam a esta notícia. A mim soa a anedota.
http://www.uai.com.br/uai/noticias/agora/internacional/201027.html
http://www.uai.com.br/uai/noticias/agora/internacional/201027.html
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