"O carácter é como uma árvore e a reputação como a sua sombra. A sombra é aquilo que nós pensamos do carácter de alguém e a árvore é a coisa mesmo, the real thing".
24/08/13
The Bling Ring - Sofia Coppola
Sofia Coppola oferece-nos o filme mais cool de 2013. Juventude, sedução, beleza, excesso, hedonismo... Ingredientes que encaixam numa cultura do vazio alimentada pelos media e que acaba por moldar e influenciar muitos comportamentos que procuram o seu momento de glória. A história é baseada em acontecimentos reais o que acaba por sustentar de forma positiva um argumento que poderia deslizar para um excesso de ficção tal as facilidades concedidas aos protagonistas.
The Bling Ring regista a história de um grupo de jovens pela casa dos 16/17 anos que se dedica a roubar casa de gente famosa. O objectivo passa pela aproximação de um modo de vida ostentado por um vestuário e acessórios só ao alcance de uma minoria. Com o passar do tempo, as facilidades concedidas não serão alheias, tornam o comportamento como um acto compulsivo que só conhecerá o seu fim quando entra em cena a polícia. Não é porém um filme de polícia e ladrões. Coppola não procura aqui criar um drama mas antes um quase comentário com uma dinâmica muito própria de um acontecimento que merece uma reflexão profunda. Falamos da ausência de valores, de uma ética de trabalho e de esforço para atingir determinados objectivos. Aqui temos uma mentalidade do "agora" sustentado por vias menos lícitas que poderão comprometer o futura de uma parte da geração. 3/5
A Gaiola Dourada - Rubben Alves
O trailer pode espelhar um filme de paródia sobre um casal de emigrantes em França. Nada disso. Presenciamos um daqueles casos não muito comuns de um produto vendável mas com qualidade. E essa qualidade encontramos na excelente combinação comédia-drama. Uma dinâmica que atira A Gaiola Dourada para fora da esfera de filme banal. Existiu claramente um trabalho de campo por parte de Rubben Alves para entrar no espírito do tipíco emigrante português que saiu do seu país natal à procura de outra qualidade de vida. O retrato que faz é fiel. Não caiu na tentatação de trabalhar apenas a superfíce saíndo antes à procura do interior, do que está por detrás da imagem apresentada no campo do social.
Joaquim de Almeida e Rita Blanco interpretam um casal sediado há muitos anos em França e que sonha com o regresso às suas raízes. Trabalhando ela em limpeza ele na construção civil, levam uma vida humilde e de resignação juntamente com os seus dois filhos. Procuram a todo o custo serem prestáveis perante os seus patrões, vizinhos e amigos. Até que um dia a materialização do seu sonho fica mais perto através de um testamento que lhes garante uma propriedade em Portugal e uma considerável fortuna. Mas a obrigação para com o outro poderá hipotecar tudo aquilo com que sempre sonharam. 3/5
15/08/13
As Vidas de Artur - Arthur Newman
Arthur Newman foi feliz na escolha de Collin Firth para um papel com um nível de exigência considerado. Diga-se que o papel lhe assenta que nem uma luva. O actor britânico tem uma tendência natural para uma melancolia que convence até o espectador mais céptico.
O filme faz-nos interrogar sobre a possibilidade de trocarmos de identidade social. A resposta vai no sentido que uma simples troca de nome não sendo acompanhada, por muito que o esforço esteja lá, por uma reestruturação do self não produz o efeito de uma mudança total. Os traços principais da personalidade já há muito estão alicercados. Como tal, o registo do "querer ser" não passa de um flash. O regresso ao real, a resignação dirão os pessimistas, é aqui uma situação irrevogável. Mas será que tem de ser sempre assim? Voltar ao ponto de partida? 3/5
06/08/13
Apenas Deus Perdoa - Nicolas Winding Refn
Para aqueles que consideram Drive (2011) um filme fraquinho, o regresso da dupla Winding - Gosling não provocou grande entusiasmo. E a visita ao segundo capítulo desta aventura, que se espera curta, teve como pretexto perceber se seria possível fazer pior. A resposta é um contundente sim.
Ora vejamos então. Ryan Goslian está ao seu melhor. Com inspiração Van Damme, surge em registo empalhado soltando uns múrmurios de vez em quando em paralelo com um estado de tristeza e ruptura interior que não convence ninguém. Como sucedeu em Drive, está no filme para a pose. É esse o problema, a sua incapacidade de entrar devidamente nas personagens. Mesmo não tendo grande margem para se soltar parece preferir a resignação.Talvez esteja na profissão errada. E a continuar a aceitar este tipo de papeis corre o risco de ficar estilizado num papel que soa a rídiculo. O argumento também não ajuda. Presenciamos um filme que parace ter a pretensão de cruzar um conjunto de estilos narrativos e estéticos que não funcionam. As cenas surgem sem um encandeamento perceptível. À medida que caminhamos para o fim tudo se agrava. E parece que as elipses não estão no campeonato de Winding tal a sua vontade de realçar, por exemplo as cenas mais violentas que soam a gratuito, a puro entretenimento para aqueles que reduzem o cinema a uma arena de combate. Como foi dito anteriormente, esta dupla deveria conhecer aqui o ponto final. Para bem de ambas as partes diga-se. 1/5
02/08/13
A Loja dos Suicídios - Patrice Leconte
A estreia de Patrice Leconte na animação deixa-nos com a sensação de que poderia ter ampliado a narrativa criando assim uma obra mais ambiciosa e não tão redutora como acabou por acontecer. O foco recaiu claramente no trabalho visual, no campo dos detalhes animados.
O timing de "A Loja dos Suicídios" difícilmente não poderia ser mais apropriado. Tendo como pano de fundo uma sociedade mergulhada numa depressão, conta-nos o dia-a-dia de uma família que explora um negócio de artigos a pensar em todos aqueles que querem deixar este mundo. Aqui é possível escolher o método mais alinhado não só com a personalidade de cada cliente mas também de acordo com a bolsa de cada um. A questão orçamental está sempre presente, mesmo no último acto antes da partida desta vida. O casal que gere os últimos suspiros de uma parte da sociedade vive debaixo de uma nuvem negra que começa a aliviar com o nascimento do novo filho. Que para cúmulo dos azares gosta de sorrir. E dessa particularidade nasce uma mutação de mentalidade, não da sociedade mas do negócio. Pena a falta de ambição para pegar no sorriso e projectá-los para uma perímetro mais abrangente. 2/5
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