"O carácter é como uma árvore e a reputação como a sua sombra. A sombra é aquilo que nós pensamos do carácter de alguém e a árvore é a coisa mesmo, the real thing".
10/11/12
A dança interminável
O Teatro S. Luiz tem em cena uma peça de August Strindber sobre a relação de um casal amarrado pelo conflito. Dança da Morte centra-se num espaço de luta onde os intervenientes, marido e mulher, estão unidos não pelo amor mas pelo ódio. Um ódio baseado em frustrações que foram crescendo ao longos do anos. E que tomaram conta das suas personalidades onde o desequilíbrio comportamental conduz ao isolamento a dois. O seu mundo é aquele e não podem viver um sem o outro porque ambos estão no mesmo registo. O conceito casal na sua versão desconstrutiva mas que se suporta e sobrevive como uma dança ao som de uma música sem fim. Até que a morte os separe.
The Master - Paul Thomas Anderson
Sem dúvida um dos filmes mais aguardados do ano que acaba por não defraudar as expectativas. A história, que parece claramente escassa, é minimizada pela prestação assombrosa de Joaquin Phoenix e de Philip S. Houfman. Paul Thomas Anderson mostra como um argumento pouco consistente consegue ser escamoteado recorrendo ao factor interpretação. Mais um vez, como em There Will Be Blood, Anderson cria uma personagem de elevada complexidade que luta quase cegamente com os seus fantasmas interiores. The Master é o reflexo de uma perspectiva das seitas na sua relação com o indivíduo que recusa viver sob regras que podem coarctar as suas acções mais primárias. Anderson filma de forma mordaz explorando as fragilidades de um corpo teórico que recusa o contraditório e onde o seu mentor parece não estar seguro do seu discurso. A liberdade individual é posta à prova perante uma realidade de postulados orientados para as massas que necessitam de um porto seguro para sobreviver. 4/5
Argo - Ben Afleck
Ben Afleck parece dar-se bem com a função de realizador. Depois de nos ter apresentado A Cidade (2010), um filme promissor sobre a violência gerada por um conjunto de assaltos a bancos, decidiu pegar num acontecimento real sobre uma intervenção secreta levada a cabo pelos EUA no início dos anos oitenta. Intervenção essa que só foi assumida na admnistração Clinton. A operação Argo teve como objectivo retirar do Irão seis cidadãos de origem norte americana que conseguiram fugir da sua embaixada aquando da invasão de uma população iraniana em fúria pela fuga do seu Xá que geriu o país com mão de ferro. É esse o motivo da furia contra os EUA que criaram ao longo de décadas governos iranianos fantoches para depois os receber quando estes finalizam a sua tarefa. A operação em si não tem muito sumo em matéria de imagem. Afleck poderia ter optado por entrar nos meandros da esfera política e militar para desmontar algumas decisões geopolíticas neste tipo de países estratégicos. Não se sai mal ter ficado pela superficie, mas a tradicional parte final onde o seu país surge como herói não reconhecido poderia ter sido trabalhada de forma mais auto-critica. 2/5
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