Subjectividades
"O carácter é como uma árvore e a reputação como a sua sombra. A sombra é aquilo que nós pensamos do carácter de alguém e a árvore é a coisa mesmo, the real thing".
21/08/14
Planeta dos Macacos: A Revolta - Matt Reeves
O primeiro capítulo (2011) trazia algo de refrescante a um clássico que já mereceu alguns remakes. Nessa etapa tivemos um filme mediano baseado na história de um macaco que conseguiu superar a inteligência da sua espécie e criar um grupo com sentido de organização e de liberdade capa de sobreviver fora da sociedade humana. No final foram viver numa floresta e poderíamos ficar por aí já que a ideia central estava devidamente explorada. Por outras palavras, à luz de uma matriz ficcional foi possível a emancipação de seres considerados inferiores. Ponto. Mas Hollywood tem um forte sentido de rentabilização das suas obras. E assim nasce a sequela que por sua vez dará lugar a uma trilogia.
Neste segundo passo, talvez pelo esgotamento narrativo ou pela mudança de realizador, temos um blockbuster para um dia enublado que nos desconvida da praia e remete-nos para uma sala de cinema. Aqui temos o domínio da imagem, dos efeitos especiais e dos sentimentos baratos (e previsíveis). Agora é a luta por um recurso energético que serve de mote para um reencontro entre humanos e macacos que vai ganhando contornos bélicos. A previsibilidade do destino das personagens acompanhada por expulsões para encher o olho torna refém uma etapa que nem deveria ter acontecido já que não acrescenta nada à obra em si. 1/5
Neste segundo passo, talvez pelo esgotamento narrativo ou pela mudança de realizador, temos um blockbuster para um dia enublado que nos desconvida da praia e remete-nos para uma sala de cinema. Aqui temos o domínio da imagem, dos efeitos especiais e dos sentimentos baratos (e previsíveis). Agora é a luta por um recurso energético que serve de mote para um reencontro entre humanos e macacos que vai ganhando contornos bélicos. A previsibilidade do destino das personagens acompanhada por expulsões para encher o olho torna refém uma etapa que nem deveria ter acontecido já que não acrescenta nada à obra em si. 1/5
21/07/14
14/06/14
Em escuta
E pelo nosso relógio já era altura de ver um novo álbum dos Mão Morta nos escaparates. Já vão alguns anos e as saudades apertam para ouvir uma banda que de linear só a qualidade porque em termos de matriz sonora tem conseguindo oscilar no sentido de criar um efeito surpresa sempre bem vindo. Neste trabalho, ainda em processo auditivo, parece que o a direcção escolhida é essencialmente de uma escrita que procura resumir um estado de letargia, revolta de uma sociedade subserviente de um sistema onde termos como equidade, redistribuição já não fazem parte do dicionário (alguma vez fizeram?). Ao ouvir as canções densas de um ponto de vista da narrativa, fica a pergunta se serão transportas para o palco. Não nos parece que haverá digressão, mas o grau de criativade da bande de Braga sempre surpreendeu. Por isso tudo pode acontecer.
Debaixo da Pele - Jonathan Glazer
Scarlett Johansson faz aqui mais um desvio das luzes de Hollywood para se juntar a uma obra secundária mas muito interessante. Funciona para as duas partes. Para a actriz, é uma oportunidade de experimentar um papel sem a pressão e a interferência dos grandes estúdios; o realizador, encontra aqui a oportunidade de chamar um grande talento para um projecto de low budget e ter, assim, também alguma visibilidade nos circuitos comerciais.
Debaixo da Pele é um filme de ficção científica muito rudimentar não por falta de domínio na técnica mas porque o propósito parece ser outro. Ou seja, a ideia central não é de uma tradicional uma "invasão" alienígena e a sua vitória ou derrota. Jonatha Glazer procura antes narrar a história de um alienígena, no papel de S. Johansson, que aos poucos vai interiorizando algumas características da natureza humana. A sua postura de máquina com uma missão bem definida vai aos poucos sendo desconstruída à medida que a caça às suas vítimas se vai avolumando. E é a partir desse momento que o seu objectivo começa a ser seriamente comprometido.
O filme não vive de Scarlett. É sem dúvida um elemento nuclear devido a uma interpretação onde se destaca o sentido evolutivo da sua personagem de forma gradual. Mas temos outros elementos importantes como a história que apresenta alguma originalidade e, também, os cenários escolhidos que conseguem incutir uma sinistralidade e mistério à narrativa. Em suma, um punhado de elementos que partilham uma funcionalidade cujo o resultado é um filme imerecedor de ser apresentado apenas numa sala em Lisboa. 3/5
22/05/14
The Grand Budapest Hotel - Wes Anderson
Wes Anderson é daqueles realizadores que mesmo não criando obras primas consegue fazer com que os seus filmes perdurem na memória do espectador. Tal característica deve-se provavelmente à sua capacidade em criar personagens singulares do ponto de vista comportamental e fazê-las depois funcionar num espaço que reflete a sua visão subjectiva do mundo. A imaginação é também um dos alicerces fundamentais para o lado estético do cinema de Anderson. No sentido de criar realidades capazes de encaixar no comportamento de personagens por vezes desconforme ao estabelecido socialmente. Veja-se, por exemplo Os Tenenbaums (2001), Um Peixe Fora de Água (2004) ou The Darjeeling Limted (2007). Obras com personagens fortes que nos levam para situações para além do comum. Os temas abordados são diferenciados mas partilham entre sim uma identidade de realização.
Em The Grand Budapest temos novamente Wes Anderson com um sentido de espaço muito apurado já que procura na deformação espacial o nervo estético que suporte o filme. A história leva-nos a um hotel em plena decadência que esconde uma história de homicídio contada de forma humorística mas inteligente sem cair no vulgar. A conjunção entre a narrativa e o elemento estético funciona na plenitude em mais uma etapa de um realizador que continua a seguir um trajecto consistente como poucos o fazem. 4/5
28/04/14
21/04/14
O tempo que não existe
Segundo a imprensa de hoje, David Moyes não deverá continuar no Manchester United. O contrato de seis anos que assinou o ano passado com o clube inglês demonstrava vontade de um projecto de longo prazo entre ambas as partes. O espaço temporal tão dilatado parecia querer indicar que o clube estava disposto a dar tempo ao sucessor do escocês colocando, se necessário, os resultados para segundo plano. Parece ter sido esse o racional. Porém, os tempos são outros. Quando Ferguson assinou o MU não era um clube vencedor. As exigências da massa associativa eram bem menores. Existiu tempo suficiente para fazer crescer uma instituição que aos poucos foi ganhando expressão desportiva no mundo do futebol. Tal como acontece no futebol de hoje, os resultados ditam a permanência de um treinador já que muitos clubes são geridos mais numa óptica financeira do que desportiva. A título de exemplo, o MU é um clube cotado em bolsa. As derrotas pesam no valor para os accionistas. Um clube nos tempos de hoje é também uma marca onde está subjacente uma estratégia de marketing que procura potenciar o seu valor. Qual o valor de um clube que na recta final do campeonato está em risco de nem sequer estar presente nas competições europeias? É este o paradigma que Moyes enfrenta. Os tempos mudam. As notícias de hoje até podem não ter fundamento, mas em todo o caso fica a mensagem que um treinador de uma marca global tem que se adaptar de forma bem célere.
Mãe e Filho - Calin Peter Netzer
O vencedor do Urso de Ouro no festival de Berlim do ano passado chega até nós. Mãe e Filho centra atenções no poder sem fronteiras de uma mãe protectora que trata o seu filho como um ser indefeso perante a vida. Quando este atropela mortalmente um jovem de 15 anos percebe que apesar de ter cortado relações com a sua progenitora afinal vai precisar da sua intervenção para lidar com a justiça. Existe em todo o caso um dilema interior em relação à verdadeira necessidade que tem da sua mãe para enfrentar a situação. Mas na realidade nunca saiu do protectorado maternal e não tem mecanismos suficientemente apurados para enfrentar a situação de forma adulta. E neste caso enfrentar uma situação que é culpado logo numa fase preliminar passa por seguir uma via pouco clara no processo judicial. A escolha desta opção leva-nos para o tema da corrupção entre classes abastadas versus instituições públicas que acaba por distorcer ou mesmo anular o elemento equidade que se pretende numa democracia. Uma crítica de Calin Netzer a uma sociedade romena ainda demasiado vulnerável ao poder do capital.
Mãe e Filho sobressai em termos de representação da personagem principal que consegue atingir uma dimensão dramática de grande nível. Não somos porém confrontados por uma escolha de sentimentos perante a personagem visto que com o decorrer do filme acabamos por perceber alguns dos seus fantasmas. Existe sim aqui uma reflexão da figura materna e da sua recusa em libertar o seu progenitor e deixá-lo escrever a sua própria biografia. 4/5
12/04/14
04/04/14
19/03/14
1942-2014
Não gosto de ver partir pessoas inteligentes onde fazem da humildade e da reflexão o seu campo predilecto de acção. Será assim que sempre me recorderei de Medeiros Ferreira. As suas intervenções na política nacional não estavam vedadas pela cor partidária revelando aasim opinião própria sem preocupações de compromisso partidário. Mas era no plano internacional que gostava de mais de o ouvir. O seu sentido histórico permitia o devido enquandramento dos acontecimentos e à sua compreensão. Não gosto de ver pessoas assim partirem. Pronto.
Her - Spike Jonze
Spike Jonze leva-nos a uma sociedade onde a tecnologia
assume um papel omnipresente na vida dos seus intervenientes. Existindo uma
clara devoção a uma plataforma tecnológica que apoia e sustenta (quase) todas
as vertentes do indivíduo. É como se a religião fosse aqui substituída por uma
entidade também invisível mas capaz de dar soluções a necessidades primárias
como a solidão. Temos assim a relação de dependência entre homem-tecnologia aprofundada.
A solidão, os problemas de comunicação entre o casal provoca
nas nossas personagens um sentido de fuga do meio humano através do recurso a
um sistema operativo promovido como uma figura digital capaz de preencher o
espaço do outro. A relação que se constrói é de experimentação a um novo espaço
para ambas as partes. Do lado do homem, o confronto com um meio não físico mas
que o faz sentir preenchido em termos sentimentais embora experienciando um
claro travo de expectativa para a exploração do plano físico que surge como uma
contradição inerente à própria natureza da relação. A outra parte,
aparentemente mais um sistema operativo como tantos outros, parece querer
ganhar vida própria ao procurar ressonância dos laivos emocionais do seu
parceiro. Revelando assim um lado orgânico que o diferencia de outros programas
meramente estanques nas suas funções.
Existe aqui um lado fantasioso que não saberemos se poderá
passar para o lado real. Trata-se da capacidade de um programa de computador
conseguir atender à solidão dos sentimentos e dar-lhes o devido feedback de
forma constante. Mas a ilusão de um preenchimento físico não passa disso mesmo.
Parece que Spike Jonze posiciona a sua visão no sentido de uma tecnologia com um papel pedagógico enquanto etapa de reflexão e de (re)construção do difícil puzzle dos
sentimentos, necessidades, medos, frustrações... Características só ao alcance da condição humana.
3/5
22/02/14
The Wolf Of Wall Street - Martin Scosese
Wall Street, um dos centros financeiros mais influentes nos destinos do mundo, surge aqui revisitado por Martin Scorsese. O pretexto é o livro que oferece o nome ao filme e que foi escrito por um corretor, aqui na figura de Leonardo Di Caprio, que atingiu numa primeira fase o sucesso através da força do ilusionismo dos números e, numa segunda fase, a decadência inerente da riqueza fácil. Uma das questões levantadas seria perceber até que ponto Scorsese conseguiria transmitir a energia quase inesgotável da figura principal do livro de Jordan Belfort. Diga-se que Di Caprio encaixa na perfeição no papel. A sua destreza mental materializada por uma linguagem corporal vencedora permite-nos compreender um pouco melhor a ascenção baseada na venda ilusória de acções altamente rentáveis. Claro está que a figura quase fantasma do regulador facilitou o caminho a este género de figuras cujo os valores éticos estão em paridade com os valores das acções que comercializam.
Seria naturalmente difícil captar o espírito do livro na sua totalidade. Scorsese resolveu focar a lente da câmara na parte mais promissora da carreira de Jordan e não na sua decadência. O que faz com que no final abandonemos a sala com a sensação de que Jordan apenas aproveitou a onda. Mas ao fechar o livro o sentimento é mais cinzento. A reabilitação causada pela dependência da heroína, a destruição da família, o nome manchado, faz-nos repensar as consequências negativas de uma vida de forma e não de conteúdo. 3/5
10/02/14
09/02/14
12 Anos Escravo - Steve McQueen
Steve McQueen consegue aqui pisar o chão do mediatismo mais pelo tema que trata do que por uma mudança de rumo em termos artísticos. O tema escravidão não é assunto estranho ao realizador. As suas obras anteriores tinham como ponto central um espaço de liberdade limitado por uma questão política em Fome (2008) e por uma adição do foro sexual em Vergonha (2011). Com 12 Anos Escravo o termo encerra uma espessura história. Importa questionar se existiu uma vontade em criar uma trilogia sobre a Liberdade do Homem e as variações que a mesma pode assumir. Mas isso só tempo o dirá.
A história é baseada num caso verídico. Solomon Northup é um músico respeitado e admirado pela sociedade (séc. XIX) até ao dia em que se vê vítima num esquema de tráfego de esravos que o atira para um estado eslavagista. A sua posição de não livre remete-o para uma longa batalha rumo a uma liberdade já experimentada. Northup não se encaixa numa consciência servil como os seus pares, a sua consciência assenta na liberdade. Entramos aqui numa dialéctica do Senhor e do Escravo. A luta pela dignidade, pela liberdade de um homem que não nasceu escravo atinge aqui uma intensidade mais forte já que existe uma condição já vivida e que agora lhe é negada. A negação a que foi submetido é o motor de toda a narrativa. É ela que provoca toda a força da nossa personagem principal. O recuperar sua individualidade é a prioridade.
McQueen faz um relato sólido de uma situação raramente abordada já que geralmente a escravidão surge como uma situação inerente à própria raça. A carga emocional, quer positiva quer negativa, das personagens nucleares não é utilizada como um jogo de razões para que no final exista um vencedor e um derrotado. Existe antes um explanar de perspectivas que acabam por ser frutos de uma mentalidade social e económica. A dinâmica de acontecimentos faz com que exista posteriormente uma mudança na condição daqueles que eram vistos como dominados. E é este o triunfo de 12 Anos Escravo. Introduz um elemento diferenciador neste género e não procura criar um quadro de pseudo-justiça para agradar ao público. 5/5
13/01/14
12/01/14
Obesidade infantil
Por diversas razões a obesidade infantil é seguramente uma das maiores preocupações das sociedades modernas. Podemos inumerar várias externalidades negativas para a sociedade. Um estado de saúde não saudável de um indivíduo vai ter um peso directo nos custos com o SNS de um país. Tal facto obrigará ao estado a canalizar mais recursos financeiros para o sector da saúde do que, por exemplo, para a educação ou I&D. Não se trata apenas de uma questão física, falamos também de danos do foro psicológico que obrigará o paciente a ser posicionado em várias frentes para conseguir um estado clínico saudável.
Interessa perguntar o que o Estado, enquanto regulador e perseguidor do bem estar da sociedade, pode fazer para minimizar este tema. Existe logo à partida um adversário muito difícil de combater: o marketing associado às empresas de produtos alimentares não saudáveis. Como regular um sector tão poderoso? Como lidar com a promiscuidade entre sector público e privado? Sabendo que muitos políticos que entram nos processos legislativos têm por vezes interesses nessas empresas, é complicado gerar soluções para um cabaz alimentar salutar para o crescimento infantil.
Os media poderão ter aqui um papel auxiliar através de campanhas de sensibilização dirigidas aos pais. Não devemos considerar as famílias como um elemento passivo. A sua intervenção no papel educacional para uma alimentação verde é fundamental. Não se trata de abolir alimentos com um elevado teor de gordura e de colestrol, mas sim relegá-los para o plano do comportamento não padronizado.
11/01/14
Em leitura
Existem livros que nos perseguem. Foi no longínquo ano de 2001, através de uma cadeira de Ciência Política, que tomei conhecimento do livro de John Rawls. Uma obra maior no campo da Filosofia Política e que na altura já tinha a 2ª edição esgotada em Portugal. Foi necessário esperar até 2013 para conseguir ter acesso à edição seguinte. E o pontapé de saída foi dada na semana passada com enorme satisfação. O livro visa a corrente Utilitarista que encontra na maximização do bem estar individual uma das suas traves mestres. Rawls critica a sua limitação pelo facto de promover a desigualdade ao não colocar o ênfase no colectivo. A equidade da justiça parece ser desde de já uma das ideias mais em foco. Será uma leitura longa, mas proveitosa espero.
A Vida Secreta de Walter Mitty - Ben Stiller
Ben Stiller faz parte daquele lote de actores que raramente arriscou outro género de papel para além da comédia fácil. Podemos encontrar excepções, por exemplo, em The Royal Tenenbaums (2001) ou Greenber (2010), filmes onde procurou uma fuga à comédia de riso instantâneo. O resto é o que sabemos. Enquanto realizador conhece aqui a sua maior visibilidade num filme que cruza o universo disney e o drama de 4ª divisão. Colocando de lado um argumento demasiado pobre para ser falado, podemos, e devemos, destacar a excelente banda sonora (David Bowie, Arcade Fire...), a fotografia e a homenagem à revista norte-americana Life na sua transacção para o formato digital. É inequívoca a intenção de criar um filme para brilhar no óscar. Os ingredientes estão lá. É só esperar pelo momento. 2/5
05/01/14
29/12/13
Personalidade do ano
Nada me confere legitimidade moral para criticar Lance Armstrong. Escrevo enquanto apreciador e defensor de um mundo desportivo onde valores como transparência, honestidade sejam respeitados. Uma visão naife dirão alguns. Como pode o desporto estar blindado a um mundo cada vez mais dominado por interesses financeiros? Resultados comprados, doping e outras situações já não são surpresas. Aliás, já entraram na banalidade. No entanto, acredito que em modalidades menos massificadas seja possível um maior rigor por parte das autoridades competentes.
No caso do ciclista norte-americano, vem à tona a frase "o problema da mentira é que não pode ser desfeita". Neste caso foram sete. Mas a mentira não pode ser esgotada na figura de Armstrong. Existiu claramente uma máquina muito bem oleada que permitiu sustentar uma ilusão da vitória numa das modalidades desportivas mais exigentes no mundo. Não quero com isto minimizar o papel de Armstrong que claramente foi o protagonista principal. Mas no banco dos réus deveriam ter passado mais elementos certamente. Importa aqui colocar perguntas: a) Como é possível saborear vitórias ilusórias? b) Qual o sentimento em viver numa realidade sustentada pela mentira? c) Qual a imagem, o legado que a família vai carregar? Muita outras questões podem ser levantadas. Enquanto isso fica para a história uma das maiores farsas que o desporto já assistiu.
Música em 2013
O surgimento do Spotify permitiu recuperar o consumo musical por estes lados depois de alguns anos mais cinzentos onde a procura foi drasticamente reduzida. Razão? a) O custo excessivo do suporte físico; b) O não recurso ao download. Agora que regressei à lides musicais avanço com uma lista de preferências do ano que agora acaba.
- Fever Hunting - Modern Live is War
- Metz - Metz
- CHVRCHES - The Bones of What You Be...
- Vampire Weekend - Modern Vampires of The City
- Nine Inch Nails - Hesitation Markets
- Kanye West - Yeezus
- The Knife - Shaking the Habitual
- The National - Trouble Will Find Me
- David Bowie - The Next day
- Lorde - Pure Heroine
26/12/13
Bom Ano
Desejar um 2014 igual ao ano corrente seria tentar subverter a realidade e as suas dinâmicas inerentes. E para não variar é com um ar pensativo que entro no novo ano. E novo significará enfrentar desafios pessoais e profissionais até agora nunca experimentados. E com o ano a findar ficam realidades para trás. Algumas com tristeza outras nem por isso. As regras ensinam-nos a abandonar ambientes de hostilidade onde o desconforto gerado convida à ruptura. Sempre me dei mal com a imaturidade, arrogância e afins. Votos de Bom Ano.
24/12/13
Bom Natal
Os desejos de boas festas são endereçados a todos aqueles que ao longo do ano passam por aqui. A todos aqueles que aceitam a pluralidade de opiniões. A todos aqueles que respeitam a diferenciação. A todos aqueles que sabem ser construtivos. Obrigado pelas visitas e um excelente Natal.
Cinema em 2013
Não é num filme deste ano prestes a findar que recai a escolha do momento cinematográfico mais marcante de 2013. Mas facto é que foram necessários 60 anos para que Viagem a Tóquio de Yasujiro Ozu chegasse às nossas salas. Por aqui encontramos a sua legitimidade para ser incluído nesta lista. É um momento brilhante de simplicidade onde a análise sobre o envelhecimento e o seu impacto numa sociedade urbana é tratado de forma tão minimalista e ao mesmo tempo tão belo. A comunicação apenas através de um olhar, a economia do diálogo, a resignação perante o fim... Para a história.
1. Viagem a Tóquio - Yasujiro Ozu
2. La Vénus à la Fourrure - Romani Polanski
2. Hanna Arend - Margarethe Von Troffa
4. A Vida de Adèle: capítulos 1 e 2 - Abdellatif Kechiche
5. A Caça - Thomas Vinterberg
6. Lore - Cate Shortland
7. Professor Lazhar - Philippe Falardeau
8. Para Além das Colinas - Cristian Mungiu
9. Barbara - Chistian Petzold
10. Blue Jasmine - Woody Allen
25/11/13
O Conselheiro - Ridley Scott
Para os conhecedores da obra do escritor norte-amaericano Comarc McCarthy fica o aviso para não criarem a expectativa de verem aqui um pedaço da sua obra literária materializada em filme. O argumento é da sua autoria mas é mesmo disso que se trata. Esvaziada a expectativa convém abordar O Conselheiro como um momento de acção realizado por Ridley Scott e com um naipe de actores bem familiares. O submundo da droga é peça central para dar vida a uma história onde a riqueza tem uma base de ilegalidade gerando um clima de risco e de desconfiança constante. Grande parte da acção é concentrada do México onde a lei do estado é substituída pela lei das ruas. A história em si é banal. Vale pelos diálogos marcados por uma óptica calculista da realidade. A violência está longe de ser considerada gratuíta. Para quem conhece McCarthy o final é o esperado, pois este mundo não é para happy endings. 3/5
20/11/13
A Vida Adèle: capítulos 1 e 2 - Abdellatif Kechiche
Foi necessário aguardar o final do ano para testemunhar se o vencedor da Palma de Ouro de 2013 seria ou não digno desse prémio. E a espera valeu a pena já que temos um digno sucessor de Amour. A Vida de Adèle... é um momento de rara beleza cinematográfica onde os desejos sexuais e o amor se misturam de forma crua e sem tabus. O desempenho das actrizes, a forma como conseguem verter veracidade no acto da sua representação é avassalador. A relação sexual de duas pessoas do mesmo sexo não é aqui exposta aos tabus religiosos ou sociais da sociedade. Mas sim à natureza na razão da essência preceder a existência. O fantasma de Sarte não só é recuperado mas como também acaba por moldar uma narrativa que trata uma minoria onde a procura para ganhar expressividade no tecido social é irrelevante. O plano sentimental é o mote para o arranque de uma história sobre uma jovem de 15 anos que começa a dar voz aos seus desejos ainda dúbios da sua líbido. O seu Id parece tender para o socialmente correcto mas a sua natureza redirecciona-lhe o desejo para o lado feminino onde experimenta o amor e o sexo em toda a sua plenitude.
Os planos que captam o amor de duas mulheres, o contacto permanente com a natureza como que a captar o natural despido de preconceitos, a desilusão e as dúvidas inerentes no amor... Tudo condensado em praticamente 3 horas que não se sentem. 5/5
18/11/13
02/01
É sem sombra de dúvida uma das estreias mais aguardadas de 2014. Falamos do novo filme de Steven McQueen que sucede a Shame (2011) e tem sido muito aplaudido pela crítica. Correm rumores de ser um forte candidato aos óscares. A sê-lo será uma novidade num realizador que tem optado por temáticas pouco ou nada atraentes às grandes massas.
16/11/13
12/11/13
La Vénus à la Fourrure - Romani Polanski
É através de um travelling que somos transportados para o palco principal de um filme baseado num romance erótico com uma vertente vincada no sadomasoquismo. Esse palco é o teatro onde duas personagens assumem as rédeas de uma narrativa plena de desafio psicológico. Veja-se a forma como Emmanuelle Seigner vai aos poucos desmontando os desejos que estão no inconsciente de Mathieu Amalric. Roman Polanski procura aqui um diálogo directo entre a sétima arte e o teatro. Por um lado, a dinâmica da acção assegurada por movimentos rápidos da câmara, por outro lado, o espaço curto e plano que obriga a uma deslocação para os diálogos e a linguagem corporal dos actores. A fórmula minimalista resulta em pleno. Uma narrativa rica associada a um desempenho acima da média permite apontar o sucessor de O Deus da Carnifícina como um dos grandes filme de 2013. Sem consenso, provavelmente. Já que o cruzamento de linguagens, leia-se cinema versus teatro, nem sempre é interpretada da mesma forma.
Um encenador, Thomas, procura uma actriz para levar a cena uma peça baseada no livro La Vénus à la Fourrure. Depois de um dia de ensaios onde ninguém pareceu merecer o papel eis que chega já depois da hora uma mulher, Vanda, algo desajeitada e na casa dos quarenta anos para um audição não prevista. O ensaio começa com Thomas a assegurar as falas masculinas. Vanda é provocadora questionando Thomas por ter escolhido uma obra com um cariz tão sexual. Este defende-se alegando que deu um sentido diferente. Mas com o evoluir dos ensaios percebemos que Thomas viu na peça um repositório dos seus desejos mais obscuros. Ao reescrevê-la fez reflectir a forma como vive a sua realidade exterior. Ao perceber que está perante um homem que recalca uma parte da sua sexualidade, Vanda vai procurar descontruir com astúcia a sua máscara. 4/5
10/11/13
Inside Llewyn Davis - Joel Coen
Joel e Ethan Coen procuram aqui criar um desvio na sua carreira ao abordarem um género de filme que nunca experimentaram. Se a memória não me trai, claro. O caminho escolhido não foi o mais fácil já que optaram por subverter aquilo que é o comum quando se aborda a vida de um músico que conseguiu não só sair do anonimato como também ganhar espessura no estilo musical onde estava filiado. A vida do cantor folk Dave Van Ronk é aqui captada no início da sua carreira e não segue a tradicional linha de ascensão ao estrelato. Não pela sua inexistência, mas pela vontade da dupla de realizadores que preferiu centrar atenções na luta do cantor pela seu reconhecimento musical.
No princípio dos anos sessenta, o estilo musical desginado como folk conhece o seu segundo capítulo de uma história iniciada no arranque do século XX. Designado como um estilo afecto às classes mais pobres e sem pretensões comerciais, privilegia a palavra, a capacidade para contar histórias, o poder de intervenção na consciência cívica. Nesta cultura musical encontramos Dave Van Ronk numa demanda pelo reconhecimento da crítica e do público. O seu mundo são os bares onde espera que um agente o consiga promover para outros patamares. Porém, o caminho é mais espinhoso do que o esperado e parece ser em círculos. O que faltava na sua música nesta fase inicial? Parecia faltar um discurso político capaz de funcionar como um rastilho para uma sociedade norte-americana desiludida com uma guerra onde não encontrava ecos de identificação. O conflito do Vietname pesou na dinâmica social americana. Não é de estranhar que Bob Dylan tenha conseguido agarrar desde logo uma franja importante de fãs pelas suas letras que pareciam dar voz ao descontentamento da sociedade civil. Uma folk inflamada pelo poder da palavra. Dylan fê-lo na perfeição. 3/5
30/10/13
26/10/13
Pela criatividade de Mad Men
No episódio da semana passada de Mad Men (season VI), tivemos a oportunidade para perceber mais uma vez o seu elevado sentido de criativade no plano narrativo. Trata-se de uma série que não se fecha no seu espectro ficcional permitindo que certos acontecimentos reais no quadro histórico em que se situa influenciem as personagens e a própria acção. Desta vez tivemos a morte inesperada de Luther King que provocou instabilidade civil e uma onda de emoção pelos EUA. Mad Men não é uma obra hermética. Permite, aceita que factos reais entrem e "dialoguem" com a sua dinâmica. Não é comum assistirmos a esta característica tão singular nas séries de hoje.
Hanna Arend - Margarethe Von Troffa
Hanna Arend ocupa um lugar de relevo na filosofia do século XX. Nomeadamente pelo trabalho que desenvolveu sobre os regimes totalitaristas com especial incidência sobre o nazismo. E ver um filme sobre uma parte da sua vida é esperar uma abordagem unicamente política. Não reduzir claro está a obra num momento mono-temático mas incidir naquilo que foi o ADN existencial da personagem de origem judia. Ao contrário do filme sobre Margaret Thatcher em que a abordagem recaiu sobre a forma como conseguiu marcar a sua posição enquanto mulher, aqui sobe-se a parada mostrando aquilo que de facto interessa a quem tem curiosidade pelo contéudo histórico.
O arranque dá-se com a captura de Adolf Eichmann na Argentina onde estava refugiado desde a capitulação do PNS na Alemanha. Alta patente das SS, Eichmann foi acusado de ser um dos principais responsáveis pela deportação de milhares de judeus para os campos de concentração. Harend, a viver nos EUA, é uma das convidadas para assistir ao julgamento em Israel para depois escrever um artigo a ser publicado na prestigiada revista The New Yorker sobre o acontecimento. E quando a opinião publica esperava um artigo que condene intelectual e moralmente o réu, eis que o resultado final é a construção de um Eichmann não anti-semita mas sim equanto burocrático que cumpriu ordens pela princípio da obediência e não pela hostilidade perante o povo judaico. A posição de Arend valeu-lhe fortes criticas em vários meios da sociedade. O esvaziar ideológico da conduta do ex-nazi e o sublinhar do seu respeito cego pelas ordens acendeu assim uma forte polémica nos meios mais intelectuais. A sua ideia da "banalização do mal" foi um dos seus mais significativos porta-estandartes para o entendimento da questão judaica no seu relacionamento com a ideologia nazi.
Presenciamos aqui um grande filme de um ponto de vista histórico. Verificamos a importância do pensamento, da reflexão perante um momento singular da humanidade. O nazismo é o mote para uma pluralidade de opiniões debatidas em faculdades, revistas, televisões... O único aspecto menor do filme é a forma como é abordada a questão de Martin Heidegger. O autor do Ser e Tempo surge aqui como um nazi, um traidor. Porém, este rótulo não reune consenso. Alguns historiadores defendem que Heidegger, então na casa dos vinte, decidiu difundir os princípios nazis pelos meios académicos para assim ocupar a cátedra de filosofia na faculdade de Friburgo. Mais do que trocar de posição, temos um jovem Heidegger ambicioso que viu no partido que ocupava o poder de então uma oportunidade para ascender na sua carreira. O contexto em que as acções são levadas a cabo nunca pode ser ignorado. 4/5
The big question of the 20th century has not disappeared in the 21st: Who is on the right side of history? Is it liberal democracy, with power growing from the bottom up, hedged in by free markets, the rule of law, accountability and the separation of powers? Or is it despotic centralism in the way of Stalin and Hitler, the most recent, though far less cruel, variant being the Chinese one: state capitalism plus one-party rule?
Fonte: wsj.com
19/10/13
Don Jon - Joseph Gordon-Levitt
Existem duas maneiras de abordar uma distorção em relação à vida sexual de um indivíduo. Tudo depende do grau de seriedade que se pretende incutir em relação ao tema. A via da palermice é aquela que garante receitas imediatas. Não acrescenta nada de novo, mas entretem o espectador com um momento de pura imbecilidade. Depois existem aqueles realizadores que pretendem a via da construção com a finalidade de expor um problema e experimentar formas possíveis de o resolver. E é nesta categoria que se insere a estreia de Joseph Gordon-Levitt enquanto realizador. Podemos dizer que Don Jon se insere numa linha de um Shame (2011) embora longe da capacidade dramática deste.
Jon, interpretado pelo próprio realizador, é um jovem na casa dos 30 que tem uma vida orientada para o ginásio, igreja, pornografia e sexo real. A sua dependência, embora não reconhecida, pela pornografia reside na insatisfação que vive na cama com os momentos fugazes que partilha com desconhecidas. A mulher, aqui enquanto mero acessório para preencher necessidades sexuais, não satisfaz a realidade vendida nos sites pornográficos. Perante esta quadro de frustração, Jon pensa no amor e encontra-o numa das suas saídas. Aqui experimenta o domínio feminino na sua esfera pessoal e percebe que em termos de cama nada se altera. E terá que esperar por Esther, uma mulher já madura, para lhe mostrar o outro lado da realidade sexual.
Em termos de realização é notória a inexperiência de Joseph Gordon-Levitt. Tudo está devidamente esquematizado. A igreja representa a dimensão moral da personagem. O ginásio o local para o narcisismo. Os jantares com a família funcionam como centro de pressão para a sua vida amorosa. Estes elementos deveriam ser inseridos na narrativa de forma mais natural. Em todo o caso estamos perante um filme que trata uma história algo delicada com inteligência e maturidade. Se Virgens Suicidas (1999) de Sofia Coppola era um filme mais direccionado a um público feminino, aqui, temos claramente um momento para a parte masculina. 3/5
Pelos EUA
O momento de impasse vivido nas terras do Tio Sam pode ser alvo de várias leituras. O centro da discórdia reside no plano designado como ObamaCare. A ala mais radical do GOP, conhecido como Tea Party, defende que o contribuinte norte-americano não tem que retirar uma parte do seu orçamento para financiar um sistema que apenas serve sustentar todos aqueles que não querem trabalhar. Os seus designatários consideram que os cerca de 50 milhões de cidadãos que não têm capacidade de pagarem um seguro de saúde resulta de demérito, de uma postura de displicência na sua relação com o trabalho. A escassez de rendimento não se deve à falta de trabalho, mas sim a uma característica individual. É este o raciocínio no seu estado mais "bruto" e que serviu, serve, e servirá de mote para a crítica à administração Obama. Para os detractores do sistema, Obama está a ferir a constituição no plano das liberdades individuais no sentido de obrigar os cidadãos a prescindirem de certos comportamentos de consumo em prol de um sistema duvidoso que premeia os incapazes.
Será curioso ver quem vencerá este braço de ferro. Barack Obama está a mexer com a orientação liberal que sempre marcou a cultura norte-americana. Tal facto, pode comprometer a vitória dos democratas nas próximas eleições. Mas se conseguir levar o seu projecto avante poderá abrir um precedente numa sociedade cada vez mais fechada no interesse individual.
O poder dos privados
Há poucos dias atrás o governo não aprovou o aumento do tempo publicitário na RTP. Como consequência foi decidido sacrificar mais uma vez o contribuinte através do aumento do montante que reverte para o canal público. O problema aqui prende-se apenas e só com a lógica económica do mercado publicitário. Ou seja, não existe interesse por parte dos canais privados que o espaço da publicidade seja dilatado. Já que esse alargamento vai pressionar de forma descendente as receitas desses canais provenientes dos anúncios. É a lei da oferta e procura no seu estado mais puro. O número ascendente de canais vai aumentar a oferta do espaço publicitário reduzindo desta forma o preço que os anunciantes estão dispostos a pagar pelo seu tempo de antena. É pena que por vezes não se procure qual o lobby que está por detrás de uma decisão governamental e que tem externalidades negativas para o contribuinte cada vez mais carregado de impostos.
A lógica comercial dos media
O embaixador angolano em Lisboa veio ontem numa entrevista colocar um certo apaziguamento nas palavras do seu Presidente. José Marcos Barrica destacou a importância dos portugueses na economia de angola, o valor do seu trabalho e outras qualidades. Ao destacar a mútua dependência dos dois países, mostrou não uma posição contrária a Eduardo dos Santos, mas sim o expressar de uma distorção numa mensagem do foro presidencial que ainda faz correr tinta na comunicação social. O que é interessante na análise dos media de hoje, sábado, é verificar que esta intervenção construtiva não merece grande destaque. Mais uma vez a lógica comercial, da venda do produto noticioso a falar mais alto. Ou seja, uma declaração de possível ruptura é mais vendável que um princípio de continuidade relacional.
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