O cinema português tem uma conotação intelectual que acaba por afastar potenciais espectadores das salas de cinema. E quando falamos de um filme premiado no Festival de Berlim, então damos a machadada final em termos comerciais. Mas a visita a Tabu recomenda-se vivamente. Acima de tudo por ser uma obra que aborda sentimentos que são imunes ao espaço que se ocupa. Por outras palavras, amor, tristeza, saudade nascem em Moçambique mas persistem em Lisboa ligados pela memória e não pelo espaço que os criou.
O filme está dividido em duas partes que se distinguem pelo forma da comunicação. Na primeira, conhecemos Aurora prisioneira da demência e abandonada por uma filha que ilustra a indiferença pelos pais idosos considerados um fardo. A sua única amiga é uma vizinha que lhe dá atenção e mostra preocupação pelo seu estado de saúde. Nesta fase os diálogos baseiam-se na simplicidade que se pretende em personagens que vivem de memórias e de poucas perspectivas em relação ao futuro. Na segunda parte, recuperamos Aurora com o trunfo da beleza proporcionada pela juventude. Estamos em Moçambique prestes a entrar numa convulsão social. Neste ponto temos a linguagem do amor que é o silêncio. A troca de olhares é suficiente para fazer as devidas ligações. A voz do narrador é o instrumento que nos ajuda a viajar pelo interior das personagens e que trilha o caminho pela narrativa.
Tabu parece obter inspiração na obra de António L. Antunes. A forma como as personagens são aprofundadas, a sua desilusão face ao que não conseguem alcançar, o fardo da ansiedade que carregam nos ombros faz deste filme um momento de rara intensidade. 4/5
