19/03/14

1942-2014


Não gosto de ver partir pessoas inteligentes onde fazem da humildade e da reflexão o seu campo predilecto de acção. Será assim que sempre me recorderei de Medeiros Ferreira. As suas intervenções na política nacional não estavam vedadas pela cor partidária revelando aasim opinião própria sem preocupações de compromisso partidário. Mas era no plano internacional que gostava de mais de o ouvir. O seu sentido histórico permitia o devido enquandramento dos acontecimentos e à sua compreensão. Não gosto de ver pessoas assim partirem. Pronto.

Her - Spike Jonze


Spike Jonze leva-nos a uma sociedade onde a tecnologia assume um papel omnipresente na vida dos seus intervenientes. Existindo uma clara devoção a uma plataforma tecnológica que apoia e sustenta (quase) todas as vertentes do indivíduo. É como se a religião fosse aqui substituída por uma entidade também invisível mas capaz de dar soluções a necessidades primárias como a solidão. Temos assim a relação de dependência entre homem-tecnologia aprofundada.
A solidão, os problemas de comunicação entre o casal provoca nas nossas personagens um sentido de fuga do meio humano através do recurso a um sistema operativo promovido como uma figura digital capaz de preencher o espaço do outro. A relação que se constrói é de experimentação a um novo espaço para ambas as partes. Do lado do homem, o confronto com um meio não físico mas que o faz sentir preenchido em termos sentimentais embora experienciando um claro travo de expectativa para a exploração do plano físico que surge como uma contradição inerente à própria natureza da relação. A outra parte, aparentemente mais um sistema operativo como tantos outros, parece querer ganhar vida própria ao procurar ressonância dos laivos emocionais do seu parceiro. Revelando assim um lado orgânico que o diferencia de outros programas meramente estanques nas suas funções.
Existe aqui um lado fantasioso que não saberemos se poderá passar para o lado real. Trata-se da capacidade de um programa de computador conseguir atender à solidão dos sentimentos e dar-lhes o devido feedback de forma constante. Mas a ilusão de um preenchimento físico não passa disso mesmo. Parece que Spike Jonze posiciona a sua visão no sentido de uma tecnologia com um papel pedagógico enquanto etapa de reflexão e de (re)construção do difícil puzzle dos sentimentos, necessidades, medos, frustrações... Características só ao alcance da condição humana. 3/5