29/12/13

Personalidade do ano


Nada me confere legitimidade moral para criticar Lance Armstrong. Escrevo enquanto apreciador e defensor de um mundo desportivo onde valores como transparência, honestidade sejam respeitados. Uma visão naife dirão alguns. Como pode o desporto estar blindado a um mundo cada vez mais dominado por interesses financeiros? Resultados comprados, doping e outras situações já não são surpresas. Aliás, já entraram na banalidade. No entanto, acredito que em modalidades menos massificadas seja possível um maior rigor por parte das autoridades competentes.

No caso do ciclista norte-americano, vem à tona a frase "o problema da mentira é que não pode ser desfeita". Neste caso foram sete. Mas a mentira não pode ser esgotada na figura de Armstrong. Existiu claramente uma máquina muito bem oleada que permitiu sustentar uma ilusão da vitória numa das modalidades desportivas mais exigentes no mundo. Não quero com isto minimizar o papel de Armstrong que claramente foi o protagonista principal. Mas no banco dos réus deveriam ter passado mais elementos certamente. Importa aqui colocar perguntas: a) Como é possível saborear vitórias ilusórias? b) Qual o sentimento em viver numa realidade sustentada pela mentira? c) Qual a imagem, o legado que a família vai carregar? Muita outras questões podem ser levantadas. Enquanto isso fica para a história uma das maiores farsas que o desporto já assistiu.   

Música em 2013

O surgimento do Spotify permitiu recuperar o consumo musical por estes lados depois de alguns anos mais cinzentos onde a procura foi drasticamente reduzida. Razão? a) O custo excessivo do suporte físico; b) O não recurso ao download. Agora que regressei à lides musicais avanço com uma lista de preferências do ano que agora acaba.

  • Fever Hunting - Modern Live is War
  • Metz - Metz
  • CHVRCHES - The Bones of What You Be...
  • Vampire Weekend - Modern Vampires of The City
  • Nine Inch Nails - Hesitation Markets
  • Kanye West - Yeezus
  • The Knife - Shaking the Habitual
  • The National - Trouble Will Find Me
  • David Bowie - The Next day
  • Lorde - Pure Heroine

26/12/13

Bom Ano


Desejar um 2014 igual ao ano corrente seria tentar subverter a realidade e as suas dinâmicas inerentes. E para não variar é com um ar pensativo que entro no novo ano. E novo significará enfrentar desafios pessoais e profissionais até agora nunca experimentados. E com o ano a findar ficam realidades para trás. Algumas com tristeza outras nem por isso. As regras ensinam-nos a abandonar ambientes de hostilidade onde o desconforto gerado convida à ruptura. Sempre me dei mal com a imaturidade, arrogância e afins. Votos de Bom Ano.

24/12/13


O passado é a coisa mais imprevisível do mundo, não para de se transformar.

George Orwell

Bom Natal


Os desejos de boas festas são endereçados a todos aqueles que ao longo do ano passam por aqui. A todos aqueles que aceitam a pluralidade de opiniões. A todos aqueles que respeitam a diferenciação. A todos aqueles que sabem ser construtivos. Obrigado pelas visitas e um excelente Natal.

Cinema em 2013


Não é num filme deste ano prestes a findar que recai a escolha do momento cinematográfico mais marcante de 2013. Mas facto é que foram necessários 60 anos para que Viagem a Tóquio de Yasujiro Ozu chegasse às nossas salas. Por aqui encontramos a sua legitimidade para ser incluído nesta lista. É um momento brilhante de simplicidade onde a análise sobre o envelhecimento e o seu impacto numa sociedade urbana é tratado de forma tão minimalista e ao mesmo tempo tão belo. A comunicação apenas através de um olhar, a economia do diálogo, a resignação perante o fim... Para a história.

1. Viagem a Tóquio - Yasujiro Ozu
2. La Vénus à la Fourrure - Romani Polanski  
2. Hanna Arend - Margarethe Von Troffa
4. A Vida de Adèle: capítulos 1 e 2 - Abdellatif Kechiche
5. A Caça - Thomas Vinterberg
6. Lore - Cate Shortland
7. Professor Lazhar - Philippe Falardeau
8. Para Além das Colinas - Cristian Mungiu
9. Barbara - Chistian Petzold
10. Blue Jasmine - Woody Allen

25/11/13

Out of Blog until December 22th

 

O Conselheiro - Ridley Scott


Para os conhecedores da obra do escritor norte-amaericano Comarc McCarthy fica o aviso para não criarem a expectativa de verem aqui um pedaço da sua obra literária materializada em filme. O argumento é da sua autoria mas é mesmo disso que se trata. Esvaziada a expectativa convém abordar O Conselheiro como um momento de acção realizado por Ridley Scott e com um naipe de actores bem familiares. O submundo da droga é peça central para dar vida a uma história onde a riqueza tem uma base de ilegalidade gerando um clima de risco e de desconfiança constante. Grande parte da acção é concentrada do México onde a lei do estado é substituída pela lei das ruas. A história em si é banal. Vale pelos diálogos marcados por uma óptica calculista da realidade. A violência está longe de ser considerada gratuíta. Para quem conhece McCarthy o final é o esperado, pois este mundo não é para happy endings. 3/5

20/11/13

Em escuta


09/01


A Vida Adèle: capítulos 1 e 2 - Abdellatif Kechiche


Foi necessário aguardar o final do ano para testemunhar se o vencedor da Palma de Ouro de 2013 seria ou não digno desse prémio. E a espera valeu a pena já que temos um digno sucessor de Amour.  A Vida de Adèle... é um momento de rara beleza cinematográfica onde os desejos sexuais e o amor se misturam de forma crua e sem tabus. O desempenho das actrizes, a forma como conseguem verter veracidade no acto da sua representação é avassalador. A relação sexual de duas pessoas do mesmo sexo não é aqui exposta aos tabus religiosos ou sociais da sociedade. Mas sim à natureza na razão da essência preceder a existência. O fantasma de Sarte não só é recuperado mas como também acaba por moldar uma narrativa que trata uma minoria onde a procura para ganhar expressividade no tecido social é irrelevante. O plano sentimental é o mote para o arranque de uma história sobre uma jovem de 15 anos que começa a dar voz aos seus desejos ainda dúbios da sua líbido. O seu Id parece tender para o socialmente correcto mas a sua natureza redirecciona-lhe o desejo para o lado feminino onde experimenta o amor e o sexo em toda a sua plenitude.  
Os planos que captam o amor de duas mulheres, o contacto permanente com a natureza como que a captar o natural despido de preconceitos, a desilusão e as dúvidas inerentes no amor... Tudo condensado em praticamente 3 horas que não se sentem. 5/5

18/11/13

02/01


É sem sombra de dúvida uma das estreias mais aguardadas de 2014. Falamos do novo filme de Steven McQueen que sucede a Shame (2011) e tem sido muito aplaudido pela crítica. Correm rumores de ser um forte candidato aos óscares. A sê-lo será uma novidade num realizador que tem optado por temáticas pouco ou nada atraentes às grandes massas.

16/11/13

Em escuta


12/11/13

La Vénus à la Fourrure - Romani Polanski


É através de um travelling que somos transportados para o palco principal de um filme baseado num romance erótico com uma vertente vincada no sadomasoquismo. Esse palco é o teatro onde duas personagens assumem as rédeas de uma narrativa plena de desafio psicológico. Veja-se a forma como Emmanuelle Seigner vai aos poucos desmontando os desejos que estão no inconsciente de Mathieu Amalric. Roman Polanski procura aqui um diálogo directo entre a sétima arte e o teatro. Por um lado, a dinâmica da acção assegurada por movimentos rápidos da câmara, por outro lado, o espaço curto e plano que obriga a uma deslocação para os diálogos e a linguagem corporal dos actores. A fórmula minimalista resulta em pleno. Uma narrativa rica associada a um desempenho acima da média permite apontar o sucessor de O Deus da Carnifícina como um dos grandes filme de 2013. Sem consenso, provavelmente. Já que o cruzamento de linguagens, leia-se cinema versus teatro, nem sempre é interpretada da mesma forma.
Um encenador, Thomas,  procura uma actriz para levar a cena uma peça baseada no livro La Vénus à la Fourrure. Depois de um dia de ensaios onde ninguém pareceu merecer o papel eis que chega já depois da hora uma mulher, Vanda, algo desajeitada e na casa dos quarenta anos para um audição não prevista. O ensaio começa com Thomas a assegurar as falas masculinas. Vanda é provocadora questionando Thomas por ter escolhido uma obra com um cariz tão sexual. Este defende-se alegando que deu um sentido diferente. Mas com o evoluir dos ensaios percebemos que Thomas viu na peça um repositório dos seus desejos mais obscuros. Ao reescrevê-la fez reflectir a forma como vive a sua realidade exterior. Ao perceber que está perante um homem que recalca uma parte da sua sexualidade, Vanda vai procurar descontruir com astúcia a sua máscara. 4/5

10/11/13

Em escuta


Inside Llewyn Davis - Joel Coen


Joel e Ethan Coen procuram aqui criar um desvio na sua carreira ao abordarem um género de filme que nunca experimentaram. Se a memória não me trai, claro. O caminho escolhido não foi o mais fácil já que optaram por subverter aquilo que é o comum quando se aborda a vida de um músico que conseguiu não só sair do anonimato como também ganhar espessura no estilo musical onde estava filiado. A vida do cantor folk Dave Van Ronk é aqui captada no início da sua carreira e não segue a tradicional linha de ascensão ao estrelato. Não pela sua inexistência, mas pela vontade da dupla de realizadores que preferiu centrar atenções na luta do cantor pela seu reconhecimento musical.
No princípio dos anos sessenta, o estilo musical desginado como folk conhece o seu segundo capítulo de uma história iniciada no arranque do século XX. Designado como um estilo afecto às classes mais pobres e sem pretensões comerciais, privilegia a palavra, a capacidade para contar histórias, o poder de intervenção na consciência cívica. Nesta cultura musical encontramos Dave Van Ronk numa demanda pelo reconhecimento da crítica e do público. O seu mundo são os bares onde espera que um agente o consiga promover para outros patamares. Porém, o caminho é mais espinhoso do que o esperado e parece ser em círculos. O que faltava na sua música nesta fase inicial? Parecia faltar um discurso político capaz de funcionar como um rastilho para uma sociedade norte-americana desiludida com uma guerra onde não encontrava ecos de identificação. O conflito do Vietname pesou na dinâmica social americana. Não é de estranhar que Bob Dylan tenha conseguido agarrar desde logo uma franja importante de fãs pelas suas letras que pareciam dar voz ao descontentamento da sociedade civil. Uma folk inflamada pelo poder da palavra. Dylan fê-lo na perfeição. 3/5

30/10/13

Em escuta


26/10/13

 

Pela criatividade de Mad Men

 

No episódio da semana passada de Mad Men (season VI), tivemos a oportunidade para perceber mais uma vez o seu elevado sentido de criativade no plano narrativo. Trata-se de uma série que não se fecha no seu espectro ficcional permitindo que certos acontecimentos reais no quadro histórico em que se situa influenciem as personagens e a própria acção. Desta vez tivemos a morte inesperada de Luther King que provocou instabilidade civil e uma onda de emoção pelos EUA. Mad Men não é uma obra hermética. Permite, aceita que factos reais entrem e "dialoguem" com a sua dinâmica. Não é comum assistirmos a esta característica tão singular nas séries de hoje.
Fonte: politicalcartoons.com

Hanna Arend - Margarethe Von Troffa


Hanna Arend ocupa um lugar de relevo na filosofia do século XX. Nomeadamente pelo trabalho que desenvolveu sobre os regimes totalitaristas com especial incidência sobre o nazismo. E ver um filme sobre uma parte da sua vida é esperar uma abordagem unicamente política. Não reduzir claro está a obra num momento mono-temático mas incidir naquilo que foi o ADN existencial da personagem de origem judia. Ao contrário do filme sobre Margaret Thatcher em que a abordagem recaiu sobre a forma como conseguiu marcar a sua posição enquanto mulher, aqui sobe-se a parada mostrando aquilo que de facto interessa a quem tem curiosidade pelo contéudo histórico.
O arranque dá-se com a captura de Adolf Eichmann na Argentina onde estava refugiado desde a capitulação do PNS na Alemanha. Alta patente das SS, Eichmann foi acusado de ser um dos principais responsáveis pela deportação de milhares de judeus para os campos de concentração. Harend, a viver nos EUA, é uma das convidadas para assistir ao julgamento em Israel para depois escrever um artigo a ser publicado na prestigiada revista The New Yorker sobre o acontecimento. E quando a opinião publica esperava um artigo que condene intelectual e moralmente o réu, eis que o resultado final é a construção de um Eichmann não anti-semita mas sim equanto burocrático que cumpriu ordens pela princípio da obediência e não pela hostilidade perante o povo judaico. A posição de Arend valeu-lhe fortes criticas em vários meios da sociedade. O esvaziar ideológico da conduta do ex-nazi e o sublinhar do seu respeito cego pelas ordens acendeu assim uma forte polémica nos meios mais intelectuais. A sua ideia da "banalização do mal" foi um dos seus mais significativos porta-estandartes para o entendimento da questão judaica no seu relacionamento com a ideologia nazi.
Presenciamos aqui um grande filme de um ponto de vista histórico. Verificamos a importância do pensamento, da reflexão perante um momento singular da humanidade. O nazismo é o mote para uma pluralidade de opiniões debatidas em faculdades, revistas, televisões... O único aspecto menor do filme é a forma como é abordada a questão de Martin Heidegger. O autor do Ser e Tempo surge aqui como um nazi, um traidor. Porém, este rótulo não reune consenso. Alguns historiadores defendem que Heidegger, então na casa dos vinte, decidiu difundir os princípios nazis pelos meios académicos para assim ocupar a cátedra de filosofia na faculdade de Friburgo. Mais do que trocar de posição, temos um jovem Heidegger ambicioso que viu no partido que ocupava o poder de então uma oportunidade para ascender na sua carreira. O contexto em que as acções são levadas a cabo nunca pode ser ignorado. 4/5   

The big question of the 20th century has not disappeared in the 21st: Who is on the right side of history? Is it liberal democracy, with power growing from the bottom up, hedged in by free markets, the rule of law, accountability and the separation of powers? Or is it despotic centralism in the way of Stalin and Hitler, the most recent, though far less cruel, variant being the Chinese one: state capitalism plus one-party rule?

Fonte: wsj.com

19/10/13

Em leitura


Don Jon - Joseph Gordon-Levitt


Existem duas maneiras de abordar uma distorção em relação à vida sexual de um indivíduo. Tudo depende do grau de seriedade que se pretende incutir em relação ao tema. A via da palermice é aquela que garante receitas imediatas. Não acrescenta nada de novo, mas entretem o espectador com um momento de pura imbecilidade. Depois existem aqueles realizadores que pretendem a via da construção com a finalidade de expor um problema e experimentar formas possíveis de o resolver. E é nesta categoria que se insere a estreia de Joseph Gordon-Levitt enquanto realizador. Podemos dizer que Don Jon se insere numa linha de um Shame (2011) embora longe da capacidade dramática deste.
Jon, interpretado pelo próprio realizador, é um jovem na casa dos 30 que tem uma vida orientada para o ginásio, igreja, pornografia e sexo real. A sua dependência, embora não reconhecida, pela pornografia reside na insatisfação que vive na cama com os momentos fugazes que partilha com desconhecidas. A mulher, aqui enquanto mero acessório para preencher necessidades sexuais, não satisfaz a realidade vendida nos sites pornográficos. Perante esta quadro de frustração, Jon pensa no amor e encontra-o numa das suas saídas. Aqui experimenta o domínio feminino na sua esfera pessoal e percebe que em termos de cama nada se altera. E terá que esperar por Esther, uma mulher já madura, para lhe mostrar o outro lado da realidade sexual.
Em termos de realização é notória a inexperiência de Joseph Gordon-Levitt. Tudo está devidamente esquematizado. A igreja representa a dimensão moral da personagem. O ginásio o local para o narcisismo. Os jantares com a família funcionam como centro de pressão para a sua vida amorosa. Estes elementos deveriam ser inseridos na narrativa de forma mais natural. Em todo o caso estamos perante um filme que trata uma história algo delicada com inteligência e maturidade. Se Virgens Suicidas (1999) de Sofia Coppola era um filme mais direccionado a um público feminino, aqui, temos claramente um momento para a parte masculina. 3/5

Pelos EUA

 

O momento de impasse vivido nas terras do Tio Sam pode ser alvo de várias leituras. O centro da discórdia reside no plano designado como ObamaCare. A ala mais radical do GOP, conhecido como Tea Party, defende que o contribuinte norte-americano não tem que retirar uma parte do seu orçamento para financiar um sistema que apenas serve sustentar todos aqueles que não querem trabalhar. Os seus designatários consideram que os cerca de 50 milhões de cidadãos que não têm capacidade de pagarem um seguro de saúde resulta de demérito, de uma postura de displicência na sua relação com o trabalho. A escassez de rendimento não se deve à falta de trabalho, mas sim a uma característica individual. É este o raciocínio no seu estado mais "bruto" e que serviu, serve, e servirá de mote para a crítica à administração Obama. Para os detractores do sistema, Obama está a ferir a constituição no plano das liberdades individuais no sentido de obrigar os cidadãos a prescindirem de certos comportamentos de consumo em prol de um sistema duvidoso que premeia os incapazes.
Será curioso ver quem vencerá este braço de ferro. Barack Obama está a mexer com a orientação liberal que sempre marcou a cultura norte-americana. Tal facto, pode comprometer a vitória dos democratas nas próximas eleições. Mas se conseguir levar o seu projecto avante poderá abrir um precedente numa sociedade cada vez mais fechada no interesse individual. 

O poder dos privados

Há poucos dias atrás o governo não aprovou o aumento do tempo publicitário na RTP. Como consequência foi decidido sacrificar mais uma vez o contribuinte através do aumento do montante que reverte para o canal público. O problema aqui prende-se apenas e só com a lógica económica do mercado publicitário. Ou seja, não existe interesse por parte dos canais privados que o espaço da publicidade seja dilatado. Já que esse alargamento vai pressionar de forma descendente as receitas desses canais provenientes dos anúncios. É a lei da oferta e procura no seu estado mais puro. O número ascendente de canais vai aumentar a oferta do espaço publicitário reduzindo desta forma o preço que os anunciantes estão dispostos a pagar pelo seu tempo de antena. É pena que por vezes não se procure qual o lobby que está por detrás de uma decisão governamental e que tem externalidades negativas para o contribuinte cada vez mais carregado de impostos.

A lógica comercial dos media

 
O embaixador angolano em Lisboa veio ontem numa entrevista colocar um certo apaziguamento nas palavras do seu Presidente. José Marcos Barrica destacou a importância dos portugueses na economia de angola, o valor do seu trabalho e outras qualidades. Ao destacar a mútua dependência dos dois países, mostrou não uma posição contrária a Eduardo dos Santos, mas sim o expressar de uma distorção numa mensagem do foro presidencial que ainda faz correr tinta na comunicação social. O que é interessante na análise dos media de hoje, sábado, é verificar que esta intervenção construtiva não merece grande destaque. Mais uma vez a lógica comercial, da venda do produto noticioso a falar mais alto. Ou seja, uma declaração de possível ruptura é mais vendável que um princípio de continuidade relacional.  

13/10/13

Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer coisas que não pareçam o que são.

Miguel de Cervantes Saavedra

05/10/13

Em escuta



30/09/13

Sentir a humilhação


A derrota, a humilhação de Fernando Seara em Lisboa pode ter múltiplas leituras. Desde de um forte adversário até à fragilidade de um PSD a governar ao abrigo de um restrito e exigente programa financeiro. Por estes lados aponto acima de tudo para a irracionalidade das promessas assumidas. Desde de um túnel no eixo do saldanha até à redução de taxas e impostos municipais. Só aqui temos logo uma contradição. Com que dinheiro iria financiar o túnel ao mesmo tempo que reduziria os impostos? Numa altura em que o estado tem reduzido o financiamento às autarquias fica a pergunta: quem pagaria? As gerações futuras?
Creio que a derrota demonstra que uma a política de mercearia já não traz vitórias. Promessas frágeis, sem sustentação tiveram a sua quota parte de culpa neste resultado desastroso. Tudo o que surgia nos outdoors suava a uma ilusão que não foi seguida pelos eleitores. Para uma próxima pede-se alguma seriedade...

Em recuperação


Neil Blomkamp é um daqueles realizadores que consegue fazer um bom filme com pouco recursos financeiros. Foi assim na sua estreia: sem compromissos comerciais, um orçamento curto e uma criatividade em larga escala. District 9 (2009) conseguiu surpreender. Algo difícil no espaço da ficção científica já que na maior parte das vezes o compromisso das bilheteiras esmaga a tentativa de diferenciação. Veja-se o exemplo de Elysium onde parece já termos um Blomkamp "capturado" pelos grandes estúdios. Ficamos com o primeiro.
Em District 9 parece existir uma mensagem bastante política. Já que não será difícil fazer uma comparação entre os extra-terrestres que vivem clandestinamente num espaço perto das cidade e a frágil situação de uma das maiores calamidades do mundo: os refúgiados. Neil Blomkamp parece ter construído aqui uma metáfora em que percebemos o ódio, o mau estar perante aqueles que são considerados estranhos. As estâncias mundias parecem aqui pactuar ao afastar a estranheza para um espaço mais remoto e ignorar tudo o resto. Até neste género de filme, onde o contacto com a realidade exterior parece longínqua, é possível presenciarmos uma tentativa clara de consciencialização sobre um flagelo humanitário.

25/09/13


Fim da linha


A distorção do desporto através da figura de resultados combinados ou do doping pode assombrar e desacreditar qualquer desporto. Esvaziá-lo inclusive da sua essência, isto é, a promoção da vitória através do talento e do trabalho. Stephen Lee foi apanhado na prática de fixação de resultados entre 2008 e 2009. Nunca foi um jogador consistente, mas seguramente merecedor de figurar no top 10. A pena é pesada: 12 anos sem poder competir ao mais alto nível. Com 38 anos de idade, presenciamos muito provavelmente a sentença de morte de uma carreira que não merecia este desfecho.

Viagem a Tóquio - Yasujiro Ozu


E sessenta anos depois a estreia... Não é ironia, infelizmente. Portugal vê agora a distribuição comercial de um dos filmes mais aclamados do cinema. E como muito difícilmente serão encontrados espectadores, apenas um cinema foi escolhido para (re)visitar Yasujiro Ozu no grande écran. E é no Nimas que podemos assistir a um momento de rara beleza. Onde encontramos um cinema capaz de relatar uma história sem a força da imagem. Aliás, a imagem é esgotada na expressão das personagens. A mensagem, as dinâmicas narrativas assumem as rédeas de uma obra inesquecível e obrigatória.
Japão, pós-segunda guerra mundial. Um casal de idosos que habita no meio rural resolve visitar os filhos desde de há muito instalados na cidade. O encontro não corre da melhor forma. A atenção prestada é coarctada por uma vida profissional própria da cultura urbana que contrasta com o mundo rural onde a família, o respeito pelo patriarca, a dedicação prestada era regra. Os princípios culturais foram alterados com a mudança de um espaço industrializado, materializado por um novo conceito de organização social que acaba por moldar os comportamentos agora mais distantes e indiferentes em relação aos entes mais queridos. Veja-se, por exemplo a desobediência constante dos netos aos seus pais.
Yasujiro Ozu faz um olhar crítico ao progresso mas não procura o conflito. A resignação perante uma realidade de contrastes é a reacção que surge com uma naturalidade desconcertante no casal de idosos que não encontrou o devido calor que esperava. São quase como que expulsos para a sua origem já que não pertencem a este tempo. 5/5

Blue Jasmine - Woody Allen


O regresso de Woody Allen ao seu habitat natural, onde construiu grande parte da sua obra, e diga-se que é nos EUA que encontramos as suas melhores obras, é feito em grande estilo. Allen recupera aqui o seu registo mais dramático e confirma-nos que Cate Blanchett é uma artista de grande nível.
A história espelha os sinais dos tempos. A crise e o seu impacto na relação do indivíduo com o que o rodeia. Jasmine (Cate Blanchett) representa o lado da sociedade que procura o luxo sem questionar a sua origem. Quando assiste ao desmoronamento do império que sustenta a sua postura de insolência perante a camada mais pobre entra num abismo emocional que a conduz à casa da irmã onde encontra a antítese do seu mundo anterior. A partir daqui surge o esforço para alinhar a vida com a sua nova condição mas quando conhece um promissor jovem político vê a sua oportunidade para retornar ao conforto do seu passado.
Em termos de carreira, Jasmine não é sequer uma lufada de ar fresco na carreira do realizador da cidade da Big Apple. É sim uma etapa onde temos uma obra uns furos bem acima dos trabalhos feitos na europa. Se é verdade que Cate Blanchett carrgea o filme, facto é encontrarmos um Woody Allen capaz de construir um argumento que permite à actriz mostrar o seu talento em toda a linha. 3/5

Em escuta


Canal 2 - 3ªf às 22h50


A sexta season da série Mad Men arrancou ontem à noite no canal dois. Alguém sabia? Não me parece. É incompreensível a falta de comunicação perante a estreia de uma das melhores séries que surgiu no panorama televisivo nestes últimos anos. Sim, não se trata de obra para massas. Sim, não surge nas conversas de café. Em todo o caso merecia mais consideração para os seus seguidores.

10/09/13

Em escuta


Os Goldfrapp regressam, ou pelo menos tentam, aos primórdios da sonaridade que marcou a sua estreia no excelente Felt Mountain (2000). Não o fazem de forma pura no sentido de pretenderem recuperar a formula na sua totalidade. Existe aqui uma clara influência da sua carreira já considerável. Não se trata de repetir, mas sim de recuperar uma sonoridade completando-a com alguns traços da sua obra.

08/09/13

12/09


E o ano não poderia acabar sem Woody Allen, certo? Pois bem, desta vez temos o regresso ao drama. Neste espaço, esperamos uma obra em registo semelhante a Uma Outra Mulher (1988) ou Setembro (1987). Obras mais introspectivas que relacionam o espaço mais íntimo com as barreiras diárias impeditivas de determinadas realizações pessoais.

Steve McQueen - Parte III


A avaliar pelos ecos provenientes do munto da internet, Steve McQueen está novamente em grande forma nesta sua 3ª etapa da carreira. O tema explorado continua a ser o homem à procura da sua liberdade. Em Fome (2008), tinhamos a história dos prisioneiros do IRA e o seu confronto com o governo inglês. Shame (2011) mostrava até que ponto a obsessão sexual pode acorrentar um indivíduo destruíndo tudo aquilo que o rodeia. Agora teremos o problema da escravatura nos EUA. O estado de liberdade de um negro é abruptamente interrompido ao ser posicionado como um homem isento de direitos. McQueen tem uma tendência natural para assuntos difíceis. E não tem a pretensão de dar muitas respostas. Para quando a estreia em Portugal?

Um adeus?


Roger Federer parece estar nitidamente no fim de uma etapa recheada de glória. Não me insiro no grupo dos que consideram que é o melhor tenista de todos os tempos. Pois, para chegar a essa conclusão teríamos que primeiro definir um conjunto de critérios que permitessem chegar a esse resultado. E reunindo esses critérios creio não encontrarmos "o melhor do mundo". Acredito inclusive que Rafel Nadal possa igualar ou mesmo bater os records mais sonantes na era Federer como, por exemplo o número de Grand Slams. Inclusive o espanhol poderá amanhã no Open dos EUA conquistar o seu 13º título ficando a 4 do helvético. Prefiro assim pensar que estamos na presença de um dos melhores jogadores de ténis que já tivemos oportunidade de ver passar por um court de ténis. A sua consistência ficará como umas das imagens de marca. 
Segundo os entendidos, Federer elevou o nível de ténis para outro patamar. E para tentar contrariar essa hegemonia foi necessário que outros jogadores subissem um degrau para contrariar um domínio que se adivinhava difícil de combater. Por outras palavras, o ATP reduzido a um só nome foi quebrado por jogadores como Nadal, Djokovic, Murray que perceberam claramente que tinham de elevar os seus padrões de jogo para ganhar. Existirá um ténis antes de Federer e outro depois de Federer? Provavelmente sim.
Não é a primeira vez que temos o ex-número 1 num momento menos bom mas a diferença é que desta vez saiu do top 5 e poderá chegar ao final da época sem um título digno dos seus pergaminhos. Tal facto leva-nos à questão se estamos na presença de um mau momento ou se será o final de uma história. Federer parece estar numa página atrás dos seus mais directos adversários. E não acredito que possa avançar. Poderá sim ainda dar um ar da sua graça ao vencer um master. Mas um 18º título de um Grand Slam será mesmo muito complicado. Mas adorava estar enganado. Ver Federer jogar é um dos maiores prazeres que tenho enquanto adepto de um desporto tão especial.
Caso se confirmem as piores previsões, leia-se final de carreira, espero que, por muito difícil que seja a decisão, o suiço perceba o seu timing de saída. Ter um final de carreira longe do nível de jogo que apresentou ao longo de tantos anos não parece ser o caminho mais inteligente.

24/08/13

The Bling Ring - Sofia Coppola


Sofia Coppola oferece-nos o filme mais cool de 2013. Juventude, sedução, beleza, excesso, hedonismo... Ingredientes que encaixam numa cultura do vazio alimentada pelos media e que acaba por moldar e influenciar muitos comportamentos que procuram o seu momento de glória. A história é baseada em acontecimentos reais o que acaba por sustentar de forma positiva um argumento que poderia deslizar para um excesso de ficção tal as facilidades concedidas aos protagonistas.
The Bling Ring regista a história de um grupo de jovens pela casa dos 16/17 anos que se dedica a roubar casa de gente famosa. O objectivo passa pela aproximação de um modo de vida ostentado por um vestuário e acessórios só ao alcance de uma minoria. Com o passar do tempo, as facilidades concedidas não serão alheias, tornam o comportamento como um acto compulsivo que só conhecerá o seu fim quando entra em cena a polícia. Não é porém um filme de polícia e ladrões. Coppola não procura aqui criar um drama mas antes um quase comentário com uma dinâmica muito própria de um acontecimento que merece uma reflexão profunda. Falamos da ausência de valores, de uma ética de trabalho e de esforço para atingir determinados objectivos. Aqui temos uma mentalidade do "agora" sustentado por vias menos lícitas que poderão comprometer o futura de uma parte da geração. 3/5

Em escuta


A Gaiola Dourada - Rubben Alves


O trailer pode espelhar um filme de paródia sobre um casal de emigrantes em França. Nada disso. Presenciamos um daqueles casos não muito comuns de um produto vendável mas com qualidade. E essa qualidade encontramos na excelente combinação comédia-drama. Uma dinâmica que atira A Gaiola Dourada para fora da esfera de filme banal. Existiu claramente um trabalho de campo por parte de Rubben Alves para entrar no espírito do tipíco emigrante português que saiu do seu país natal à procura de outra qualidade de vida. O retrato que faz é fiel. Não caiu na tentatação de trabalhar apenas a superfíce saíndo antes à procura do interior, do que está por detrás da imagem apresentada no campo do social.
Joaquim de Almeida e Rita Blanco interpretam um casal sediado há muitos anos em França e que sonha com o regresso às suas raízes. Trabalhando ela em limpeza ele na construção civil, levam uma vida humilde e de resignação juntamente com os seus dois filhos. Procuram a todo o custo serem prestáveis perante os seus patrões, vizinhos e amigos. Até que um dia a materialização do seu sonho fica mais perto através de um testamento que lhes garante uma propriedade em Portugal e uma considerável fortuna. Mas a obrigação para com o outro poderá hipotecar tudo aquilo com que sempre sonharam. 3/5
Há três coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida.

Provérbio chinês

15/08/13

As Vidas de Artur - Arthur Newman


Arthur Newman foi feliz na escolha de Collin Firth para um papel com um nível de exigência considerado. Diga-se que o papel lhe assenta que nem uma luva. O actor britânico tem uma tendência natural para uma melancolia que convence até o espectador mais céptico.
O filme faz-nos interrogar sobre a possibilidade de trocarmos de identidade social. A resposta vai no sentido que uma simples troca de nome não sendo acompanhada, por muito que o esforço esteja lá, por uma reestruturação do self não produz o efeito de uma mudança total. Os traços principais da personalidade já há muito estão alicercados. Como tal, o registo do "querer ser" não passa de um flash. O regresso ao real, a resignação dirão os pessimistas, é aqui uma situação irrevogável. Mas será que tem de ser sempre assim? Voltar ao ponto de partida? 3/5

06/08/13

Apenas Deus Perdoa - Nicolas Winding Refn


Para aqueles que consideram Drive (2011) um filme fraquinho, o regresso da dupla Winding - Gosling não provocou grande entusiasmo. E a visita ao segundo capítulo desta aventura, que se espera curta, teve como pretexto perceber se seria possível fazer pior. A resposta é um contundente sim.
Ora vejamos então. Ryan Goslian está ao seu melhor. Com inspiração Van Damme, surge em registo empalhado soltando uns múrmurios de vez em quando em paralelo com um estado de tristeza e ruptura interior que não convence ninguém. Como sucedeu em Drive, está no filme para a pose. É esse o problema, a sua incapacidade de entrar devidamente nas personagens. Mesmo não tendo grande margem para se soltar parece preferir a resignação.Talvez esteja na profissão errada. E a continuar a aceitar este tipo de papeis corre o risco de ficar estilizado num papel que soa a rídiculo. O argumento também não ajuda. Presenciamos um filme que parace ter a pretensão de cruzar um conjunto de estilos narrativos e estéticos que não funcionam. As cenas surgem sem um encandeamento perceptível. À medida que caminhamos para o fim tudo se agrava. E parece que as elipses não estão no campeonato de Winding tal a sua vontade de realçar, por exemplo as cenas mais violentas que soam a gratuito, a puro entretenimento para aqueles que reduzem o cinema a uma arena de combate. Como foi dito anteriormente, esta dupla deveria conhecer aqui o ponto final. Para bem de ambas as partes diga-se. 1/5

Em leitura


02/08/13

 
Em tempos alguém me falou da dificuldade em conhecer pessoas interessantes. Pareceu exagero. Mas à medida que o tempo corre, com as pessoas que surgem nessa linha temporal, vai-me parecendo que as palavras outrora insustentaveis em termos empíricos até encontram afinal algum eco. É realmente muito difícil construir assuntos verdadeiramente interessantes. Interessante aqui numa lógica de troca de ideias que anexam o factor aprendizagem. Em vez disso fala-se dos falsos heróis, experienciamos a uniformidade de pensamento, mais concretamente o efeito rebanho, sentimos a arrogância perante o "esquisito"... Um mar de bocejos onde ficar off será o melhor remédio. Sim, o silêncio.

A Loja dos Suicídios - Patrice Leconte


A estreia de Patrice Leconte na animação deixa-nos com a sensação de que poderia ter ampliado a narrativa criando assim uma obra mais ambiciosa e não tão redutora como acabou por acontecer. O foco recaiu claramente no trabalho visual, no campo dos detalhes animados.
O timing de "A Loja dos Suicídios" difícilmente não poderia ser mais apropriado. Tendo como pano de fundo uma sociedade mergulhada numa depressão, conta-nos o dia-a-dia de uma família que explora um negócio de artigos a pensar em todos aqueles que querem deixar este mundo. Aqui é possível escolher o método mais alinhado não só com a personalidade de cada cliente mas também de acordo com a bolsa de cada um. A questão orçamental está sempre presente, mesmo no último acto antes da partida desta vida. O casal que gere os últimos suspiros de uma parte da sociedade vive debaixo de uma nuvem negra que começa a aliviar com o nascimento do novo filho. Que para cúmulo dos azares gosta de sorrir. E dessa particularidade nasce uma mutação de mentalidade, não da sociedade mas do negócio. Pena a falta de ambição para pegar no sorriso e projectá-los para uma perímetro mais abrangente. 2/5

26/07/13

Em escuta


21/07/13

Dinner time

Fonte: guardian.co.uk