29/04/06

Para a Primavera


Para quem tem uma visão intemporal da cena musical saberá que Hello Nasty é um álbum sempre actual. Lisboa foi o local escolhido pela banda para a sua apresentação oficial. Uma tentativa de fugir à confusão dos palcos habituais que servem de promoção a novos trabalhos (Milão, Paris, Londres...). No final do ano figurou nas listas dos melhores discos de 1998. Com a temperatura a subir é tempo de recuperar um álbum que prima pelas batidas e rimas sempre viciantes.

28/04/06



Fonte: http://photos.reuters.com/Pictures/default.aspx

O BCP visto de fora

O «The Wall Street Journal», um dos jornais financeiros mais conceituados do mundo, diz que os administradores do BCP estão a «encher os bolsos» à custa dos accionistas. Segundo o mesmo órgão, cada administrador vai ganhar mais 6 milhões com a compra do BPI, acrescentando que o banco usou alguns dos aumentos de capital para fazer «investimentos desastrosos».
O «The Wall Street Journal», na edição de hoje, diz que os «banqueiros têm jeito para enriquecer a si próprios», mas que poucos o fazem com «o descaramento» do Banco Comercial Português (BCP).
Fonte oficial do banco liderado por Paulo Teixeira Pinto disse ao Jornal de Negócios Online «não comentar» o contudo deste artigo.
Na coluna de «breakingviews», e com um título «Esquema de enriquecer dos banqueiros do BCP à custa dos accionistas», o jornal diz que o plano de remuneração variável do BCP implica que os nove administradores fiquem com até 10% dos lucros.
«A particularidade deste plano de remuneração é que a percentagem dos lucros que vai para os administradores não cai, mesmo se o BCP emitir mais acções», revela o jornal.
Segundo a mesma fonte, esta particularidade deu aos executivos do banco um incentivo para emitir mais capital para financiar aquisições.
«O banco tem vindo a emitir novas acções, praticamente, uma vez por ano», usando parte desse capital para «investimentos desastrosos».
Agora, o BCP está a planear mais um aumento de capital de 4 mil milhões de euros para financiar a compra hostil do Banco BPI [Cot].
Segundo as contas do «The Wall Street Journal», sem ter em conta a oferta pública de aquisição (OPA) sobre o BPI, em 2008, os lucros da instituição bancária deverão ascender a 900 milhões de euros (estimativas avançadas pelo BCP).
Isto significa que o bónus de remuneração dos administradores totalizará os 90 milhões de euros, ou 10 milhões de euros para cada um dos administradores do banco, o que «é de uma generosidade incrível», opina o jornal.
Com a integração do BPI, os lucros no mesmo período saltam para os 1,4 mil milhões de euros, o que vai resultar num bónus de 140 milhões de euros, ou 16 milhões de euros por administrador.
Segundo o órgão de informação, como as aquisições são financiadas por aumentos de capital, o lucro do banco não sofre uma erosão e, logo, a remuneração também não.
O «The Wall Street Journal» questiona ainda a independência de alguns accionistas-chave do BCP, recordando que o BCP é accionista da Eureko, que tem uma «joint venture» para a área dos seguros com o Fortis e que a UBS, que controla 2% do capital, assessorou várias operações financeiras do banco.
«Mas os accionistas independentes do BCP continuam em maioria. Eles devem insistir em acabar com este plano ultrajante», termina assim o artigo do jornal.

Fonte: http://www.negocios.pt/default.asp?CpContentId=275197

27/04/06


Workers Returning Home
Munch

Sem história


Foi com desagrado que observei o onze inicial do AC Milan. Carlos Ancelotti apresentou uma equipa muito semelhante daquela que jogou na primeira mão. As alterações necessárias não foram feitas. Como por exemplo, a entrada de Cafu para o lado direito em detrimento de Stam que é central. A inclusão de Rui Costa também não seria má ideia face à actuação desastrosa de Seedorf no jogo passado.
Os noventa minutos foram pautados pelo equilíbrio com as oportunidades de golo a serem repartidas. De salientar aquele golo mal anulado ao Milan que poderia relançar a eliminatória. No entanto julgo que o nulo é aceitável. O Barcelona chega à final com mérito.

26/04/06

Irrelevâncias

Apesar da estação continuar no mesmo sítio... Apesar do relógio continuar a funcionar... Mesmo assim deixou de surgir o complemento chave para o arrancar do dia.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas para mim foste a estrela entre as estrelas

Caetano Veloso in Livros

25/04/06


Lovers And Life
Munch

Sem sentido

Num artigo de opinião recente (Público - 21/04/06) temos um ex - bastonário dos advogados a fazer previsões sobre o futuro. Miguel Júdice crê que os trabalhadores portugueses devem estar preparados para trabalharem cada vez mais horas sem que para isso o seu salário aumente. Mais: a idade da reforma poderá vir a ser uma incógnita. Este visionário sublinha também a impossibilidade de continuar com certos "luxos", como por exemplo, ir de carro para o trabalho. Ora quais as novidades destas profecias?

24/04/06

Primeiros passos

http://www.natt-chinesinha.blogspot.com/

Despedida



Começa hoje hoje na 2 (22h30) a V e última série de Sete Palmos de Terra.

23/04/06



Nenhum fatalismo biológico, psicológico ou económico determina a figura que o Ser feminino possui na sociedade; é a civilização no seu conjunto que determina esta criatura.

Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo

Reflexões


Fonte: http://blog.foreignpolicy.com

22/04/06


Paula Rego

20/04/06

Esperar pelo infinito



A imagem que acompanha esta postagem está invertida. Peço desde já as minha desculpas. Vai ser curioso seguir este contínua subida do preço do petróleo. Já se fala em chegar rapidamente ao 80 dólares por barril. Caso atinja tal valor teremos a gasolina a 1,50€ por litro. Numa altura em que a recuperação era dada como um dado adquirido por terras portuguesas parece que vamos ter que aguardar. Mas caso as previsões estejam certas, isto é, o petróleo continuar a subir desenfreadamente e sem recuos, essa recuperação nunca chegará a ver a luz do dia.

Em aberto

O jogo da passada 3º feira colocou frente a frente duas equipas com um palmarés assimétrico. Mas nesse dia o que interessava era o momento. Caso o peso histórico tivesse algo a dizer o AC Milan nem sequer precisava de jogar. A equipa Italiana conta com 7 vitórias nesta competição ao passo que o Barcelona tem apenas um troféu.
Ao longo do jogo o Milan criou oportunidades suficientes para vencer o jogo e, quem sabe, resolver a eliminatória. Mas tal não sucedeu. Faltou frieza. Algo que está sempre presente no seu futebol. Na 3º feira a equipa estava nervosa e sem confiança. Um handicap aproveitado, e bem, pelo Barcelona que procurou controlar os acontecimentos para depois desferir o golpe fatal. Um erro de Seedorf colocou os espanhois em vantagem.
Uma palavra para Ancelotti que errou, a meu ver, nas substituições. Colocou Maldini numa altura em que a equipa precisava de intensificar o ataque. Ainda por cima tirou Pirlo que fez uma exibição satisfatória. Ao contrário de Seedorf que continuou em campo quando na realidade deveria ter saído logo ao intervalo para não prejudicar mais a sua equipa. E o que dizer de Stam a extremo?
Apesar da imprensa espanhola colocar desde já o Barcelona na final, creio que teremos que esperar até à próxima 4º feira. Eu, aposto no Milan.

16/04/06

14/04/06

A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, actue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão, a fim de que ele gire em torno de si mesmo e, assim, à volta do seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório que gira à volta do homem enquanto ele não circula em torno de si próprio.

Karl Marx

A ver

Uma reportagem onde é possível ver o outro lado de uma China que actualmente apenas é falada pela sua pujança económica. Creio que não traz novidade nenhuma mas tem a subtileza de sensibilizar para a questão social da China. Embora possamos estar a falar apenas de uma minoria. A avaliação ficará ao critério de cada um.

http://www.sky.com/skynews/video/videoplayer/0,,31200-china_p10436,00.html

13/04/06

Por alturas da Páscoa



Munch

11/04/06

Pureza

No primeiro contacto com Infinito Particular somos assaltados por um estado de harmonia que irradia uma paz indescritível. Marisa Monte é a própria a admitir que este trabalho foi gravado imbuído num cenário de calma e de paz fruto do nascimento do seu filho. Da primeira até à última canção não há lugar para devaneios mais mexidos. Tudo obedece a uma lógica de calma. Com este trabalho fica bem patente que Marisa Monte apenas dá sinais de vida quando tem a certeza que o resultado final é o desejado. Não existem cedências face a editoras ou à imprensa especializada. Este comportamento é nos dias de hoje muito raro.

10/04/06


Munch
Life can only be understood backwards, but it must be lived forwards.

Kierkegaard

Think Tank

No calão de guerra norte-americano do início dos anos 40, a expressão think tank servia para designar as salas nas quais os estrategas militares usavam o pensamento como uma arma, através da análise e discussão do planeamento das operações no terreno. Hoje, a maioria dos mais de três mil e quinhentos think tanks existentes em todo o mundo já não se ocupa dos assuntos da guerra, mas sim de outro tipo de conflito: a guerra das ideias. Os últimos vinte anos ficaram marcados pela explosão do número de think tanks, com áreas de estudo, inspirações ideológicas e modos de actuar muito diferentes, de tal forma que não é fácil definir este termo com precisão. De uma forma geral, a designação think tank aplica-se a organizações de análise e pesquisa de políticas públicas, que procuram avaliar as ideias que servem de base à governação e, por outro lado, abrir novos caminhos. "O trabalho de um think tank acaba por ser fundamentar tecnicamente opções políticas e ser um local de cultura, onde novas ideias surgem", diz José Ferreira Machado, director da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa. A maioria destas organizações estão próximas de uma causa política ou de uma ideologia, sendo poucas as que poderão ser consideradas independentes. Até ao início dos anos 70, os poucos think tanks que existiam fora da esfera militar nos Estados Unidos da América - país onde funciona cerca de metade dos think tanks do mundo - tinham como missão oferecer uma análise rigorosa e objectiva das políticas públicas, através do trabalho de académicos de topo, num campo alargado de áreas. Na década de 70, foi crescendo o número de think tanks, que passaram a adoptar áreas de análise mais específicas e a estar cada vez mais dependentes de uma ideologia. Os anos 90 viram outra fase de multiplicação deste tipo de organizações nos EUA e na Europa, muitas das quais vistas não como centros de pesquisa rigorosa, mas como porta-vozes de empresas ou de partidos políticos à procura de influência junto dos decisores e da opinião pública. Durante a década de 90, segundo um estudo da Universidade da Califórnia, mais de mil milhões de euros foram canalizados para o financiamento deste tipo de organizações - com as suas vantagens e desvantagens, os think tanks são parte integrante das sociedades ocidentais. Portugal, até agora, tem ficado praticamente fora deste fenómeno - no que toca a think tanks, em especial na cada vez mais importante área da economia, o país está ainda na fase zero. A perda na qualidade do debate público e na governação é grande, asseguram os académicos.

A criação de think tanks exige uma sociedade civil activa desenvolvida, capaz de perceber que as ideias necessitam de tempo para crescer e maturar. "O tempo das ideias não é o tempo dos negócios e os potenciais financiadores exigem um retorno mais imediato", comenta Ferreira Machado.


O que são think tanks? Nove critérios que fazem um verdadeiro think tank. 1. São organizações de carácter permanente 2. São especializadas na produção de soluções para políticas públicas 3. Têm pessoal interno permanente dedicado à investigação 4. Produzem ideias, análises e recomendações 5. Dão grande ênfase à comunicação dos resultados do seu trabalho aos decisores políticos e opinião pública (têm um site na internet) 6. Não têm responsabilidades ao nível da governação 7. Não pretendem estar ao serviço de qualquer interesse específico: ambicionam independência para a sua pesquisa 8. Não oferecem graus académicos e a formação não é a sua actividade principal 9. Procuram agir, de forma explícita ou implícita, em benefício do interesse público Fonte: "Europe and its think tanks: a promise to be fulfilled", Notre Europe.

Fonte: Público (10/04/2006).
Autor: Bruno Faria Lopes.

http://jornal.publico.clix.pt/noticias.asp?id=72790&sid=7963

08/04/06



If You Tolerate This Your Children Will Be Next

Cara lavada

O Diário Digital tem a partir de hoje um novo formato. Creio que esta mudança significa uma evolução e não um passo ao lado. O novo grafismo transmite uma sensação de abertura relativamente aos conteúdos. Deixando de existir aquela impressão de notícias inseridas num espaço acanhado e com cores demasiado fortes.

http://diariodigital.sapo.pt/

16/09

O espaço dos semanários vai ser alargado a partir de 16 de Setembro. O ex - director do Expresso decidiu criar o seu próprio jornal. O financiamento do projecto ficou a cargo do BCP. Por isso julgo que não podemos esperar notícias negativas sobre esta instituição financeira no semanário de José António Saraiva. Mas a questão mais importante será talvez saber se existirá espaço para mais um jornal deste género.

Irrelevâncias

Num espaço de cultura. O cruzar de... A proximidade dos... O cotovelo que quase tocou nos seus cabelos. Por vezes existe uma sintonia entre o instinto e a razão.

06/04/06

Fim

Acabou ontem a participação do Benfica na Liga dos Campeões Europeus. E não há motivo de orgulho por ter chegado tão longe. O futebol apresentado pelos pupilos de Ronald koeman fazem corar de vergonha qualquer benfiquista/português que se preze. A inorganização da equipa foi disfarçada pela falta de eficácia dos seus adversários. Só assim podemos explicar como foi possivel chegar tão longe. Quem ainda não tinha percebido o porquê do Benfica andar arredado das grandes noites europeias ficou esclarecido. O único aspecto positivo na questão reside no plano financeiro, apenas e só. O prestígio benfiquista desceu mais uns pontos.

02/04/06

Sabem quando...?

Reflexões

Sorbonne: revoltas comparadas
Palcos de discórdia Mário Mesquita
"A França é, sem dúvida, o país das "jornadas de luta". Manifestámo-nos e, depois, esquecemos. Fui naturalmente sensível aos acontecimentos de 1968. Mas quando, a 13 de Maio, participei no imenso desfile em que me encontrava ao lado de Mendès France (...), mobilizava em vão as memórias da Frente Popular. Havia semelhança, mas era outra "coisa". Os estudantes tinham substituído os proletários, que faziam greve, mas permaneciam nas suas empresas. Imaginávamo-nos a viver uma Revolução, mas era só o fantasma, a ilusão revolucionária. As imagens de Marx e de Mao não chegavam para torná-la realidade. O que nada retira à mensagem anti-autoritária e libertária do movimento ".Esta evocação de Maio de 68 é de Gilles Martinet, político, jornalista e diplomata, figura destacada da esquerda francesa, ligado a Mendès France e a Michel Roccard, convertido, por pragmatismo, à liderança de François Mitterrand. Por ironia, Martinet desapareceu, esta semana, aos (quase) 90 anos do mundo dos vivos, enquanto a Sorbonne, os estudantes e os trabalhadores se revoltavam contra a "o contrato do primeiro emprego". Cenário semelhante, em contexto político muito diverso: dos universitários em "crise de civilização" de 1968 transitámos, neste Março de 2006, para os estudantes e trabalhadores mobilizados contra a precariedade no emprego.Gilles Martinet participou até ao fim da sua vida no debate político francês. Não seria uma personalidade política de primeira linha. A sua carreira em matéria de cargos de Estado - o mais relevante que desempenhou foi o de embaixador de França em Itália - ficou aquém do seu percurso de ideólogo, escritor e figura decisiva na unificação do socialismo democrático francês. Mas a qualidade da vida pública de um país não se avalia apenas pelos primeiros tenores. A influência da reflexão de Martinet exerceu-se longe das próprias fronteiras francesas - sobretudo nas esferas dos dissidentes do estalinismo (Martinet afastou-se do PCF em 1937) que procuravam outros rumos. Mário Soares (nas entrevistas a Maria João Avilez) confessa a sua dívida ao France Observateur (antepassado do Nouvel Observateur), fundado e dirigido, nos anos 50, por Gilles Martinet e Claude Bourdet, na procura de uma incerta "terceira via", entre o modelo soviético e o atlantismo anticomunista.Do Quartier Latin ao Quartier LatinAs analogias entre Maio de 68 e Março de 2006 residem apenas na paisagem urbana (os lugares do Quartier Latin) e nas imagens (os desfiles de estudantes e os confrontos com a polícia). Os "slogans" mal recuperados de 68 - "sous les pavés la plage" - só acentuam a distância entre a ideologia transbordante dos anos 60 e o vazio de propostas políticas (alternativas à receita "neo-liberal") dos nossos dias. Em 1968, sob a invocação de Marx e Mao e a inspiração de Marcuse, estava em causa um certo estilo de "civilização burguesa", em 2006 defendem o direito ao trabalho (o novo modelo contratual prevê a possibilidade de despedimento sem qualquer justificação durante os primeiros dois anos).Os jovens de 68 eram quase sempre estudantes em exclusividade, oriundos da classe média, enquanto cerca de metade dos universitários de hoje trabalha para pagar os estudos e a habitação (segundo informa o Figaro). Protestam contra a tentativa de combater o desemprego juvenil através da "discriminação negativa" durante os primeiros anos de contrato. A crise dos bairros suburbanos, que se manifestou com violência em finais de 2005, prolonga-se, agora, no ensino secundário e universitário. Ao legítimo exercício do direito à manifestação juntam-se cenas de violência gratuita, possivelmente promovidas por habitantes dos bairros periféricos, depois transformadas em incendiário espectáculo televisivo. Os combates de 1968 invocavam utopias futuras, enquanto os de hoje se baseiam na "resistência", sem horizontes definidos, às incertezas do presente, expressas na nova legislação de trabalho, elaborada em nome da "flexibilização". O modelo social europeu e francês está em crise. O Governo de direita tenta combater o desemprego juvenil com uma receita drástica e rejeitada pelos sindicatos, enquanto a oposição socialista se acantona numa crítica prudente, sem ousar avançar uma alternativa coerente. As sínteses entre flexibilidade e a segurança no emprego preconizadas no Europa do Norte, protestante e social-democrata, se não correspondem a meros "slogans" vazios de conteúdo, parecem dificilmente transponíveis para outros contextos políticos e sociais, onde as negociações entre os Governos, o patronato e os sindicatos não possuem tradições análogas.A ausência da ameaça soviéticaSão limitadas as analogias entre as revoltas na Sorbonne do século XX e do século XXI. A situação económica e política não favorece os sonhos, nem as utopias. Os manifestantes de Paris e de tantas outras cidades francesas actuam em autodefesa. A esquerda reformista, se estivesse no poder, provavelmente, tomaria medidas legislativas menos drásticas, embora direccionadas no mesmo sentido ("flexibilização"). A última proposta, preconizada pelos socialistas franceses, imaginativa e mobilizadora no plano social foi "a lei das 35 horas" de Martine Aubry (filha de Jacques Delors). A reforma era generosa nas intenções de luta contra o desemprego, mas a sua aplicação não foi bem sucedida. O contexto político e económico, posterior ao desaparecimento do Bloco de Leste, não se projectou apenas na crise dos partidos comunistas pró-soviéticos. Atingiu a social-democracia e o socialismo reformista. Os partidos socialistas e social-democratas confrontam-se com o exemplo dos trabalhistas de Tony Blair, que deslocaram as incertas fronteiras da "terceira via" que, dantes, se situavam entre o capitalismo e o comunismo e, agora, se transferem para um lugar intermédio algures entre o capitalismo neo-liberal e o capitalismo social-democrata.Na sua autobiografia - aqui comentada noutra ocasião ("Os Socialistas Marranos", Público, 16 de Janeiro de 2005) - Gilles Martinet escreveu, a propósito dos anos do pós-Guerra: "Na Europa, o patronato nunca teria feito tantas concessões ao modelo social-democrata, se não tivesse medo da ameaça soviética. Tudo mudou nas décadas seguintes." Para quem não tinha ilusões, desde os anos 30, sobre a natureza do regime da URSS, como era o caso de Martinet, esta afirmação releva do mais cruel realismo político. A queda da URSS, além de varrer do mapa as "democracias populares" do Leste, minaram as condições de sustentação do modelo social europeu. Sem a introdução de mecanismos de regulação na economia mundializada, será difícil que subsistam as "ilhas europeias" do Estado-Providência. Professor Universitário
Fonte: Público (02/04/2006)

01/04/06