Sorbonne: revoltas comparadas
Palcos de discórdia Mário Mesquita
"A França é, sem dúvida, o país das "jornadas de luta". Manifestámo-nos e, depois, esquecemos. Fui naturalmente sensível aos acontecimentos de 1968. Mas quando, a 13 de Maio, participei no imenso desfile em que me encontrava ao lado de Mendès France (...), mobilizava em vão as memórias da Frente Popular. Havia semelhança, mas era outra "coisa". Os estudantes tinham substituído os proletários, que faziam greve, mas permaneciam nas suas empresas. Imaginávamo-nos a viver uma Revolução, mas era só o fantasma, a ilusão revolucionária. As imagens de Marx e de Mao não chegavam para torná-la realidade. O que nada retira à mensagem anti-autoritária e libertária do movimento ".Esta evocação de Maio de 68 é de Gilles Martinet, político, jornalista e diplomata, figura destacada da esquerda francesa, ligado a Mendès France e a Michel Roccard, convertido, por pragmatismo, à liderança de François Mitterrand. Por ironia, Martinet desapareceu, esta semana, aos (quase) 90 anos do mundo dos vivos, enquanto a Sorbonne, os estudantes e os trabalhadores se revoltavam contra a "o contrato do primeiro emprego". Cenário semelhante, em contexto político muito diverso: dos universitários em "crise de civilização" de 1968 transitámos, neste Março de 2006, para os estudantes e trabalhadores mobilizados contra a precariedade no emprego.Gilles Martinet participou até ao fim da sua vida no debate político francês. Não seria uma personalidade política de primeira linha. A sua carreira em matéria de cargos de Estado - o mais relevante que desempenhou foi o de embaixador de França em Itália - ficou aquém do seu percurso de ideólogo, escritor e figura decisiva na unificação do socialismo democrático francês. Mas a qualidade da vida pública de um país não se avalia apenas pelos primeiros tenores. A influência da reflexão de Martinet exerceu-se longe das próprias fronteiras francesas - sobretudo nas esferas dos dissidentes do estalinismo (Martinet afastou-se do PCF em 1937) que procuravam outros rumos. Mário Soares (nas entrevistas a Maria João Avilez) confessa a sua dívida ao France Observateur (antepassado do Nouvel Observateur), fundado e dirigido, nos anos 50, por Gilles Martinet e Claude Bourdet, na procura de uma incerta "terceira via", entre o modelo soviético e o atlantismo anticomunista.Do Quartier Latin ao Quartier LatinAs analogias entre Maio de 68 e Março de 2006 residem apenas na paisagem urbana (os lugares do Quartier Latin) e nas imagens (os desfiles de estudantes e os confrontos com a polícia). Os "slogans" mal recuperados de 68 - "sous les pavés la plage" - só acentuam a distância entre a ideologia transbordante dos anos 60 e o vazio de propostas políticas (alternativas à receita "neo-liberal") dos nossos dias. Em 1968, sob a invocação de Marx e Mao e a inspiração de Marcuse, estava em causa um certo estilo de "civilização burguesa", em 2006 defendem o direito ao trabalho (o novo modelo contratual prevê a possibilidade de despedimento sem qualquer justificação durante os primeiros dois anos).Os jovens de 68 eram quase sempre estudantes em exclusividade, oriundos da classe média, enquanto cerca de metade dos universitários de hoje trabalha para pagar os estudos e a habitação (segundo informa o Figaro). Protestam contra a tentativa de combater o desemprego juvenil através da "discriminação negativa" durante os primeiros anos de contrato. A crise dos bairros suburbanos, que se manifestou com violência em finais de 2005, prolonga-se, agora, no ensino secundário e universitário. Ao legítimo exercício do direito à manifestação juntam-se cenas de violência gratuita, possivelmente promovidas por habitantes dos bairros periféricos, depois transformadas em incendiário espectáculo televisivo. Os combates de 1968 invocavam utopias futuras, enquanto os de hoje se baseiam na "resistência", sem horizontes definidos, às incertezas do presente, expressas na nova legislação de trabalho, elaborada em nome da "flexibilização". O modelo social europeu e francês está em crise. O Governo de direita tenta combater o desemprego juvenil com uma receita drástica e rejeitada pelos sindicatos, enquanto a oposição socialista se acantona numa crítica prudente, sem ousar avançar uma alternativa coerente. As sínteses entre flexibilidade e a segurança no emprego preconizadas no Europa do Norte, protestante e social-democrata, se não correspondem a meros "slogans" vazios de conteúdo, parecem dificilmente transponíveis para outros contextos políticos e sociais, onde as negociações entre os Governos, o patronato e os sindicatos não possuem tradições análogas.A ausência da ameaça soviéticaSão limitadas as analogias entre as revoltas na Sorbonne do século XX e do século XXI. A situação económica e política não favorece os sonhos, nem as utopias. Os manifestantes de Paris e de tantas outras cidades francesas actuam em autodefesa. A esquerda reformista, se estivesse no poder, provavelmente, tomaria medidas legislativas menos drásticas, embora direccionadas no mesmo sentido ("flexibilização"). A última proposta, preconizada pelos socialistas franceses, imaginativa e mobilizadora no plano social foi "a lei das 35 horas" de Martine Aubry (filha de Jacques Delors). A reforma era generosa nas intenções de luta contra o desemprego, mas a sua aplicação não foi bem sucedida. O contexto político e económico, posterior ao desaparecimento do Bloco de Leste, não se projectou apenas na crise dos partidos comunistas pró-soviéticos. Atingiu a social-democracia e o socialismo reformista. Os partidos socialistas e social-democratas confrontam-se com o exemplo dos trabalhistas de Tony Blair, que deslocaram as incertas fronteiras da "terceira via" que, dantes, se situavam entre o capitalismo e o comunismo e, agora, se transferem para um lugar intermédio algures entre o capitalismo neo-liberal e o capitalismo social-democrata.Na sua autobiografia - aqui comentada noutra ocasião ("Os Socialistas Marranos", Público, 16 de Janeiro de 2005) - Gilles Martinet escreveu, a propósito dos anos do pós-Guerra: "Na Europa, o patronato nunca teria feito tantas concessões ao modelo social-democrata, se não tivesse medo da ameaça soviética. Tudo mudou nas décadas seguintes." Para quem não tinha ilusões, desde os anos 30, sobre a natureza do regime da URSS, como era o caso de Martinet, esta afirmação releva do mais cruel realismo político. A queda da URSS, além de varrer do mapa as "democracias populares" do Leste, minaram as condições de sustentação do modelo social europeu. Sem a introdução de mecanismos de regulação na economia mundializada, será difícil que subsistam as "ilhas europeias" do Estado-Providência. Professor Universitário
Fonte: Público (02/04/2006)