"O carácter é como uma árvore e a reputação como a sua sombra. A sombra é aquilo que nós pensamos do carácter de alguém e a árvore é a coisa mesmo, the real thing".
21/08/14
Planeta dos Macacos: A Revolta - Matt Reeves
O primeiro capítulo (2011) trazia algo de refrescante a um clássico que já mereceu alguns remakes. Nessa etapa tivemos um filme mediano baseado na história de um macaco que conseguiu superar a inteligência da sua espécie e criar um grupo com sentido de organização e de liberdade capa de sobreviver fora da sociedade humana. No final foram viver numa floresta e poderíamos ficar por aí já que a ideia central estava devidamente explorada. Por outras palavras, à luz de uma matriz ficcional foi possível a emancipação de seres considerados inferiores. Ponto. Mas Hollywood tem um forte sentido de rentabilização das suas obras. E assim nasce a sequela que por sua vez dará lugar a uma trilogia.
Neste segundo passo, talvez pelo esgotamento narrativo ou pela mudança de realizador, temos um blockbuster para um dia enublado que nos desconvida da praia e remete-nos para uma sala de cinema. Aqui temos o domínio da imagem, dos efeitos especiais e dos sentimentos baratos (e previsíveis). Agora é a luta por um recurso energético que serve de mote para um reencontro entre humanos e macacos que vai ganhando contornos bélicos. A previsibilidade do destino das personagens acompanhada por expulsões para encher o olho torna refém uma etapa que nem deveria ter acontecido já que não acrescenta nada à obra em si. 1/5
Neste segundo passo, talvez pelo esgotamento narrativo ou pela mudança de realizador, temos um blockbuster para um dia enublado que nos desconvida da praia e remete-nos para uma sala de cinema. Aqui temos o domínio da imagem, dos efeitos especiais e dos sentimentos baratos (e previsíveis). Agora é a luta por um recurso energético que serve de mote para um reencontro entre humanos e macacos que vai ganhando contornos bélicos. A previsibilidade do destino das personagens acompanhada por expulsões para encher o olho torna refém uma etapa que nem deveria ter acontecido já que não acrescenta nada à obra em si. 1/5
21/07/14
14/06/14
Em escuta
E pelo nosso relógio já era altura de ver um novo álbum dos Mão Morta nos escaparates. Já vão alguns anos e as saudades apertam para ouvir uma banda que de linear só a qualidade porque em termos de matriz sonora tem conseguindo oscilar no sentido de criar um efeito surpresa sempre bem vindo. Neste trabalho, ainda em processo auditivo, parece que o a direcção escolhida é essencialmente de uma escrita que procura resumir um estado de letargia, revolta de uma sociedade subserviente de um sistema onde termos como equidade, redistribuição já não fazem parte do dicionário (alguma vez fizeram?). Ao ouvir as canções densas de um ponto de vista da narrativa, fica a pergunta se serão transportas para o palco. Não nos parece que haverá digressão, mas o grau de criativade da bande de Braga sempre surpreendeu. Por isso tudo pode acontecer.
Debaixo da Pele - Jonathan Glazer
Scarlett Johansson faz aqui mais um desvio das luzes de Hollywood para se juntar a uma obra secundária mas muito interessante. Funciona para as duas partes. Para a actriz, é uma oportunidade de experimentar um papel sem a pressão e a interferência dos grandes estúdios; o realizador, encontra aqui a oportunidade de chamar um grande talento para um projecto de low budget e ter, assim, também alguma visibilidade nos circuitos comerciais.
Debaixo da Pele é um filme de ficção científica muito rudimentar não por falta de domínio na técnica mas porque o propósito parece ser outro. Ou seja, a ideia central não é de uma tradicional uma "invasão" alienígena e a sua vitória ou derrota. Jonatha Glazer procura antes narrar a história de um alienígena, no papel de S. Johansson, que aos poucos vai interiorizando algumas características da natureza humana. A sua postura de máquina com uma missão bem definida vai aos poucos sendo desconstruída à medida que a caça às suas vítimas se vai avolumando. E é a partir desse momento que o seu objectivo começa a ser seriamente comprometido.
O filme não vive de Scarlett. É sem dúvida um elemento nuclear devido a uma interpretação onde se destaca o sentido evolutivo da sua personagem de forma gradual. Mas temos outros elementos importantes como a história que apresenta alguma originalidade e, também, os cenários escolhidos que conseguem incutir uma sinistralidade e mistério à narrativa. Em suma, um punhado de elementos que partilham uma funcionalidade cujo o resultado é um filme imerecedor de ser apresentado apenas numa sala em Lisboa. 3/5
22/05/14
The Grand Budapest Hotel - Wes Anderson
Wes Anderson é daqueles realizadores que mesmo não criando obras primas consegue fazer com que os seus filmes perdurem na memória do espectador. Tal característica deve-se provavelmente à sua capacidade em criar personagens singulares do ponto de vista comportamental e fazê-las depois funcionar num espaço que reflete a sua visão subjectiva do mundo. A imaginação é também um dos alicerces fundamentais para o lado estético do cinema de Anderson. No sentido de criar realidades capazes de encaixar no comportamento de personagens por vezes desconforme ao estabelecido socialmente. Veja-se, por exemplo Os Tenenbaums (2001), Um Peixe Fora de Água (2004) ou The Darjeeling Limted (2007). Obras com personagens fortes que nos levam para situações para além do comum. Os temas abordados são diferenciados mas partilham entre sim uma identidade de realização.
Em The Grand Budapest temos novamente Wes Anderson com um sentido de espaço muito apurado já que procura na deformação espacial o nervo estético que suporte o filme. A história leva-nos a um hotel em plena decadência que esconde uma história de homicídio contada de forma humorística mas inteligente sem cair no vulgar. A conjunção entre a narrativa e o elemento estético funciona na plenitude em mais uma etapa de um realizador que continua a seguir um trajecto consistente como poucos o fazem. 4/5
28/04/14
21/04/14
O tempo que não existe
Segundo a imprensa de hoje, David Moyes não deverá continuar no Manchester United. O contrato de seis anos que assinou o ano passado com o clube inglês demonstrava vontade de um projecto de longo prazo entre ambas as partes. O espaço temporal tão dilatado parecia querer indicar que o clube estava disposto a dar tempo ao sucessor do escocês colocando, se necessário, os resultados para segundo plano. Parece ter sido esse o racional. Porém, os tempos são outros. Quando Ferguson assinou o MU não era um clube vencedor. As exigências da massa associativa eram bem menores. Existiu tempo suficiente para fazer crescer uma instituição que aos poucos foi ganhando expressão desportiva no mundo do futebol. Tal como acontece no futebol de hoje, os resultados ditam a permanência de um treinador já que muitos clubes são geridos mais numa óptica financeira do que desportiva. A título de exemplo, o MU é um clube cotado em bolsa. As derrotas pesam no valor para os accionistas. Um clube nos tempos de hoje é também uma marca onde está subjacente uma estratégia de marketing que procura potenciar o seu valor. Qual o valor de um clube que na recta final do campeonato está em risco de nem sequer estar presente nas competições europeias? É este o paradigma que Moyes enfrenta. Os tempos mudam. As notícias de hoje até podem não ter fundamento, mas em todo o caso fica a mensagem que um treinador de uma marca global tem que se adaptar de forma bem célere.
Mãe e Filho - Calin Peter Netzer
O vencedor do Urso de Ouro no festival de Berlim do ano passado chega até nós. Mãe e Filho centra atenções no poder sem fronteiras de uma mãe protectora que trata o seu filho como um ser indefeso perante a vida. Quando este atropela mortalmente um jovem de 15 anos percebe que apesar de ter cortado relações com a sua progenitora afinal vai precisar da sua intervenção para lidar com a justiça. Existe em todo o caso um dilema interior em relação à verdadeira necessidade que tem da sua mãe para enfrentar a situação. Mas na realidade nunca saiu do protectorado maternal e não tem mecanismos suficientemente apurados para enfrentar a situação de forma adulta. E neste caso enfrentar uma situação que é culpado logo numa fase preliminar passa por seguir uma via pouco clara no processo judicial. A escolha desta opção leva-nos para o tema da corrupção entre classes abastadas versus instituições públicas que acaba por distorcer ou mesmo anular o elemento equidade que se pretende numa democracia. Uma crítica de Calin Netzer a uma sociedade romena ainda demasiado vulnerável ao poder do capital.
Mãe e Filho sobressai em termos de representação da personagem principal que consegue atingir uma dimensão dramática de grande nível. Não somos porém confrontados por uma escolha de sentimentos perante a personagem visto que com o decorrer do filme acabamos por perceber alguns dos seus fantasmas. Existe sim aqui uma reflexão da figura materna e da sua recusa em libertar o seu progenitor e deixá-lo escrever a sua própria biografia. 4/5
12/04/14
04/04/14
19/03/14
1942-2014
Não gosto de ver partir pessoas inteligentes onde fazem da humildade e da reflexão o seu campo predilecto de acção. Será assim que sempre me recorderei de Medeiros Ferreira. As suas intervenções na política nacional não estavam vedadas pela cor partidária revelando aasim opinião própria sem preocupações de compromisso partidário. Mas era no plano internacional que gostava de mais de o ouvir. O seu sentido histórico permitia o devido enquandramento dos acontecimentos e à sua compreensão. Não gosto de ver pessoas assim partirem. Pronto.
Her - Spike Jonze
Spike Jonze leva-nos a uma sociedade onde a tecnologia
assume um papel omnipresente na vida dos seus intervenientes. Existindo uma
clara devoção a uma plataforma tecnológica que apoia e sustenta (quase) todas
as vertentes do indivíduo. É como se a religião fosse aqui substituída por uma
entidade também invisível mas capaz de dar soluções a necessidades primárias
como a solidão. Temos assim a relação de dependência entre homem-tecnologia aprofundada.
A solidão, os problemas de comunicação entre o casal provoca
nas nossas personagens um sentido de fuga do meio humano através do recurso a
um sistema operativo promovido como uma figura digital capaz de preencher o
espaço do outro. A relação que se constrói é de experimentação a um novo espaço
para ambas as partes. Do lado do homem, o confronto com um meio não físico mas
que o faz sentir preenchido em termos sentimentais embora experienciando um
claro travo de expectativa para a exploração do plano físico que surge como uma
contradição inerente à própria natureza da relação. A outra parte,
aparentemente mais um sistema operativo como tantos outros, parece querer
ganhar vida própria ao procurar ressonância dos laivos emocionais do seu
parceiro. Revelando assim um lado orgânico que o diferencia de outros programas
meramente estanques nas suas funções.
Existe aqui um lado fantasioso que não saberemos se poderá
passar para o lado real. Trata-se da capacidade de um programa de computador
conseguir atender à solidão dos sentimentos e dar-lhes o devido feedback de
forma constante. Mas a ilusão de um preenchimento físico não passa disso mesmo.
Parece que Spike Jonze posiciona a sua visão no sentido de uma tecnologia com um papel pedagógico enquanto etapa de reflexão e de (re)construção do difícil puzzle dos
sentimentos, necessidades, medos, frustrações... Características só ao alcance da condição humana.
3/5
22/02/14
The Wolf Of Wall Street - Martin Scosese
Wall Street, um dos centros financeiros mais influentes nos destinos do mundo, surge aqui revisitado por Martin Scorsese. O pretexto é o livro que oferece o nome ao filme e que foi escrito por um corretor, aqui na figura de Leonardo Di Caprio, que atingiu numa primeira fase o sucesso através da força do ilusionismo dos números e, numa segunda fase, a decadência inerente da riqueza fácil. Uma das questões levantadas seria perceber até que ponto Scorsese conseguiria transmitir a energia quase inesgotável da figura principal do livro de Jordan Belfort. Diga-se que Di Caprio encaixa na perfeição no papel. A sua destreza mental materializada por uma linguagem corporal vencedora permite-nos compreender um pouco melhor a ascenção baseada na venda ilusória de acções altamente rentáveis. Claro está que a figura quase fantasma do regulador facilitou o caminho a este género de figuras cujo os valores éticos estão em paridade com os valores das acções que comercializam.
Seria naturalmente difícil captar o espírito do livro na sua totalidade. Scorsese resolveu focar a lente da câmara na parte mais promissora da carreira de Jordan e não na sua decadência. O que faz com que no final abandonemos a sala com a sensação de que Jordan apenas aproveitou a onda. Mas ao fechar o livro o sentimento é mais cinzento. A reabilitação causada pela dependência da heroína, a destruição da família, o nome manchado, faz-nos repensar as consequências negativas de uma vida de forma e não de conteúdo. 3/5
10/02/14
09/02/14
12 Anos Escravo - Steve McQueen
Steve McQueen consegue aqui pisar o chão do mediatismo mais pelo tema que trata do que por uma mudança de rumo em termos artísticos. O tema escravidão não é assunto estranho ao realizador. As suas obras anteriores tinham como ponto central um espaço de liberdade limitado por uma questão política em Fome (2008) e por uma adição do foro sexual em Vergonha (2011). Com 12 Anos Escravo o termo encerra uma espessura história. Importa questionar se existiu uma vontade em criar uma trilogia sobre a Liberdade do Homem e as variações que a mesma pode assumir. Mas isso só tempo o dirá.
A história é baseada num caso verídico. Solomon Northup é um músico respeitado e admirado pela sociedade (séc. XIX) até ao dia em que se vê vítima num esquema de tráfego de esravos que o atira para um estado eslavagista. A sua posição de não livre remete-o para uma longa batalha rumo a uma liberdade já experimentada. Northup não se encaixa numa consciência servil como os seus pares, a sua consciência assenta na liberdade. Entramos aqui numa dialéctica do Senhor e do Escravo. A luta pela dignidade, pela liberdade de um homem que não nasceu escravo atinge aqui uma intensidade mais forte já que existe uma condição já vivida e que agora lhe é negada. A negação a que foi submetido é o motor de toda a narrativa. É ela que provoca toda a força da nossa personagem principal. O recuperar sua individualidade é a prioridade.
McQueen faz um relato sólido de uma situação raramente abordada já que geralmente a escravidão surge como uma situação inerente à própria raça. A carga emocional, quer positiva quer negativa, das personagens nucleares não é utilizada como um jogo de razões para que no final exista um vencedor e um derrotado. Existe antes um explanar de perspectivas que acabam por ser frutos de uma mentalidade social e económica. A dinâmica de acontecimentos faz com que exista posteriormente uma mudança na condição daqueles que eram vistos como dominados. E é este o triunfo de 12 Anos Escravo. Introduz um elemento diferenciador neste género e não procura criar um quadro de pseudo-justiça para agradar ao público. 5/5
13/01/14
12/01/14
Obesidade infantil
Por diversas razões a obesidade infantil é seguramente uma das maiores preocupações das sociedades modernas. Podemos inumerar várias externalidades negativas para a sociedade. Um estado de saúde não saudável de um indivíduo vai ter um peso directo nos custos com o SNS de um país. Tal facto obrigará ao estado a canalizar mais recursos financeiros para o sector da saúde do que, por exemplo, para a educação ou I&D. Não se trata apenas de uma questão física, falamos também de danos do foro psicológico que obrigará o paciente a ser posicionado em várias frentes para conseguir um estado clínico saudável.
Interessa perguntar o que o Estado, enquanto regulador e perseguidor do bem estar da sociedade, pode fazer para minimizar este tema. Existe logo à partida um adversário muito difícil de combater: o marketing associado às empresas de produtos alimentares não saudáveis. Como regular um sector tão poderoso? Como lidar com a promiscuidade entre sector público e privado? Sabendo que muitos políticos que entram nos processos legislativos têm por vezes interesses nessas empresas, é complicado gerar soluções para um cabaz alimentar salutar para o crescimento infantil.
Os media poderão ter aqui um papel auxiliar através de campanhas de sensibilização dirigidas aos pais. Não devemos considerar as famílias como um elemento passivo. A sua intervenção no papel educacional para uma alimentação verde é fundamental. Não se trata de abolir alimentos com um elevado teor de gordura e de colestrol, mas sim relegá-los para o plano do comportamento não padronizado.
11/01/14
Em leitura
Existem livros que nos perseguem. Foi no longínquo ano de 2001, através de uma cadeira de Ciência Política, que tomei conhecimento do livro de John Rawls. Uma obra maior no campo da Filosofia Política e que na altura já tinha a 2ª edição esgotada em Portugal. Foi necessário esperar até 2013 para conseguir ter acesso à edição seguinte. E o pontapé de saída foi dada na semana passada com enorme satisfação. O livro visa a corrente Utilitarista que encontra na maximização do bem estar individual uma das suas traves mestres. Rawls critica a sua limitação pelo facto de promover a desigualdade ao não colocar o ênfase no colectivo. A equidade da justiça parece ser desde de já uma das ideias mais em foco. Será uma leitura longa, mas proveitosa espero.
A Vida Secreta de Walter Mitty - Ben Stiller
Ben Stiller faz parte daquele lote de actores que raramente arriscou outro género de papel para além da comédia fácil. Podemos encontrar excepções, por exemplo, em The Royal Tenenbaums (2001) ou Greenber (2010), filmes onde procurou uma fuga à comédia de riso instantâneo. O resto é o que sabemos. Enquanto realizador conhece aqui a sua maior visibilidade num filme que cruza o universo disney e o drama de 4ª divisão. Colocando de lado um argumento demasiado pobre para ser falado, podemos, e devemos, destacar a excelente banda sonora (David Bowie, Arcade Fire...), a fotografia e a homenagem à revista norte-americana Life na sua transacção para o formato digital. É inequívoca a intenção de criar um filme para brilhar no óscar. Os ingredientes estão lá. É só esperar pelo momento. 2/5
05/01/14
Subscrever:
Mensagens (Atom)






















