30/10/13

Em escuta


26/10/13

 

Pela criatividade de Mad Men

 

No episódio da semana passada de Mad Men (season VI), tivemos a oportunidade para perceber mais uma vez o seu elevado sentido de criativade no plano narrativo. Trata-se de uma série que não se fecha no seu espectro ficcional permitindo que certos acontecimentos reais no quadro histórico em que se situa influenciem as personagens e a própria acção. Desta vez tivemos a morte inesperada de Luther King que provocou instabilidade civil e uma onda de emoção pelos EUA. Mad Men não é uma obra hermética. Permite, aceita que factos reais entrem e "dialoguem" com a sua dinâmica. Não é comum assistirmos a esta característica tão singular nas séries de hoje.
Fonte: politicalcartoons.com

Hanna Arend - Margarethe Von Troffa


Hanna Arend ocupa um lugar de relevo na filosofia do século XX. Nomeadamente pelo trabalho que desenvolveu sobre os regimes totalitaristas com especial incidência sobre o nazismo. E ver um filme sobre uma parte da sua vida é esperar uma abordagem unicamente política. Não reduzir claro está a obra num momento mono-temático mas incidir naquilo que foi o ADN existencial da personagem de origem judia. Ao contrário do filme sobre Margaret Thatcher em que a abordagem recaiu sobre a forma como conseguiu marcar a sua posição enquanto mulher, aqui sobe-se a parada mostrando aquilo que de facto interessa a quem tem curiosidade pelo contéudo histórico.
O arranque dá-se com a captura de Adolf Eichmann na Argentina onde estava refugiado desde a capitulação do PNS na Alemanha. Alta patente das SS, Eichmann foi acusado de ser um dos principais responsáveis pela deportação de milhares de judeus para os campos de concentração. Harend, a viver nos EUA, é uma das convidadas para assistir ao julgamento em Israel para depois escrever um artigo a ser publicado na prestigiada revista The New Yorker sobre o acontecimento. E quando a opinião publica esperava um artigo que condene intelectual e moralmente o réu, eis que o resultado final é a construção de um Eichmann não anti-semita mas sim equanto burocrático que cumpriu ordens pela princípio da obediência e não pela hostilidade perante o povo judaico. A posição de Arend valeu-lhe fortes criticas em vários meios da sociedade. O esvaziar ideológico da conduta do ex-nazi e o sublinhar do seu respeito cego pelas ordens acendeu assim uma forte polémica nos meios mais intelectuais. A sua ideia da "banalização do mal" foi um dos seus mais significativos porta-estandartes para o entendimento da questão judaica no seu relacionamento com a ideologia nazi.
Presenciamos aqui um grande filme de um ponto de vista histórico. Verificamos a importância do pensamento, da reflexão perante um momento singular da humanidade. O nazismo é o mote para uma pluralidade de opiniões debatidas em faculdades, revistas, televisões... O único aspecto menor do filme é a forma como é abordada a questão de Martin Heidegger. O autor do Ser e Tempo surge aqui como um nazi, um traidor. Porém, este rótulo não reune consenso. Alguns historiadores defendem que Heidegger, então na casa dos vinte, decidiu difundir os princípios nazis pelos meios académicos para assim ocupar a cátedra de filosofia na faculdade de Friburgo. Mais do que trocar de posição, temos um jovem Heidegger ambicioso que viu no partido que ocupava o poder de então uma oportunidade para ascender na sua carreira. O contexto em que as acções são levadas a cabo nunca pode ser ignorado. 4/5   

The big question of the 20th century has not disappeared in the 21st: Who is on the right side of history? Is it liberal democracy, with power growing from the bottom up, hedged in by free markets, the rule of law, accountability and the separation of powers? Or is it despotic centralism in the way of Stalin and Hitler, the most recent, though far less cruel, variant being the Chinese one: state capitalism plus one-party rule?

Fonte: wsj.com

19/10/13

Em leitura


Don Jon - Joseph Gordon-Levitt


Existem duas maneiras de abordar uma distorção em relação à vida sexual de um indivíduo. Tudo depende do grau de seriedade que se pretende incutir em relação ao tema. A via da palermice é aquela que garante receitas imediatas. Não acrescenta nada de novo, mas entretem o espectador com um momento de pura imbecilidade. Depois existem aqueles realizadores que pretendem a via da construção com a finalidade de expor um problema e experimentar formas possíveis de o resolver. E é nesta categoria que se insere a estreia de Joseph Gordon-Levitt enquanto realizador. Podemos dizer que Don Jon se insere numa linha de um Shame (2011) embora longe da capacidade dramática deste.
Jon, interpretado pelo próprio realizador, é um jovem na casa dos 30 que tem uma vida orientada para o ginásio, igreja, pornografia e sexo real. A sua dependência, embora não reconhecida, pela pornografia reside na insatisfação que vive na cama com os momentos fugazes que partilha com desconhecidas. A mulher, aqui enquanto mero acessório para preencher necessidades sexuais, não satisfaz a realidade vendida nos sites pornográficos. Perante esta quadro de frustração, Jon pensa no amor e encontra-o numa das suas saídas. Aqui experimenta o domínio feminino na sua esfera pessoal e percebe que em termos de cama nada se altera. E terá que esperar por Esther, uma mulher já madura, para lhe mostrar o outro lado da realidade sexual.
Em termos de realização é notória a inexperiência de Joseph Gordon-Levitt. Tudo está devidamente esquematizado. A igreja representa a dimensão moral da personagem. O ginásio o local para o narcisismo. Os jantares com a família funcionam como centro de pressão para a sua vida amorosa. Estes elementos deveriam ser inseridos na narrativa de forma mais natural. Em todo o caso estamos perante um filme que trata uma história algo delicada com inteligência e maturidade. Se Virgens Suicidas (1999) de Sofia Coppola era um filme mais direccionado a um público feminino, aqui, temos claramente um momento para a parte masculina. 3/5

Pelos EUA

 

O momento de impasse vivido nas terras do Tio Sam pode ser alvo de várias leituras. O centro da discórdia reside no plano designado como ObamaCare. A ala mais radical do GOP, conhecido como Tea Party, defende que o contribuinte norte-americano não tem que retirar uma parte do seu orçamento para financiar um sistema que apenas serve sustentar todos aqueles que não querem trabalhar. Os seus designatários consideram que os cerca de 50 milhões de cidadãos que não têm capacidade de pagarem um seguro de saúde resulta de demérito, de uma postura de displicência na sua relação com o trabalho. A escassez de rendimento não se deve à falta de trabalho, mas sim a uma característica individual. É este o raciocínio no seu estado mais "bruto" e que serviu, serve, e servirá de mote para a crítica à administração Obama. Para os detractores do sistema, Obama está a ferir a constituição no plano das liberdades individuais no sentido de obrigar os cidadãos a prescindirem de certos comportamentos de consumo em prol de um sistema duvidoso que premeia os incapazes.
Será curioso ver quem vencerá este braço de ferro. Barack Obama está a mexer com a orientação liberal que sempre marcou a cultura norte-americana. Tal facto, pode comprometer a vitória dos democratas nas próximas eleições. Mas se conseguir levar o seu projecto avante poderá abrir um precedente numa sociedade cada vez mais fechada no interesse individual. 

O poder dos privados

Há poucos dias atrás o governo não aprovou o aumento do tempo publicitário na RTP. Como consequência foi decidido sacrificar mais uma vez o contribuinte através do aumento do montante que reverte para o canal público. O problema aqui prende-se apenas e só com a lógica económica do mercado publicitário. Ou seja, não existe interesse por parte dos canais privados que o espaço da publicidade seja dilatado. Já que esse alargamento vai pressionar de forma descendente as receitas desses canais provenientes dos anúncios. É a lei da oferta e procura no seu estado mais puro. O número ascendente de canais vai aumentar a oferta do espaço publicitário reduzindo desta forma o preço que os anunciantes estão dispostos a pagar pelo seu tempo de antena. É pena que por vezes não se procure qual o lobby que está por detrás de uma decisão governamental e que tem externalidades negativas para o contribuinte cada vez mais carregado de impostos.

A lógica comercial dos media

 
O embaixador angolano em Lisboa veio ontem numa entrevista colocar um certo apaziguamento nas palavras do seu Presidente. José Marcos Barrica destacou a importância dos portugueses na economia de angola, o valor do seu trabalho e outras qualidades. Ao destacar a mútua dependência dos dois países, mostrou não uma posição contrária a Eduardo dos Santos, mas sim o expressar de uma distorção numa mensagem do foro presidencial que ainda faz correr tinta na comunicação social. O que é interessante na análise dos media de hoje, sábado, é verificar que esta intervenção construtiva não merece grande destaque. Mais uma vez a lógica comercial, da venda do produto noticioso a falar mais alto. Ou seja, uma declaração de possível ruptura é mais vendável que um princípio de continuidade relacional.  

13/10/13

Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer coisas que não pareçam o que são.

Miguel de Cervantes Saavedra

05/10/13

Em escuta