"O carácter é como uma árvore e a reputação como a sua sombra. A sombra é aquilo que nós pensamos do carácter de alguém e a árvore é a coisa mesmo, the real thing".
11/11/12
César Deve Morrer - Paulo e Vittorio Taviani
Apetece perguntar como se atribui o prémio máximo do Festival de Berlim deste ano a uma obra que desperta tanta nostalogia já que revisita a raíz do cinema, leia-se teatro. Pois, para compreender é necessário fazer uma visita para responder à questão. A génese do projecto é muito simples. Filmar os preparativos para uma peça de teatro numa prisão de alta segurança em Itália onde os atores são os próprios presidiários. A peça é de Shakespeare e evoca os tempos de Roma como cidade de poder e temida pelas suas congéneres. A mais-valia, e elemento surpresa, do filme reside na forma como os irmãos Taviani conseguiram espalhar pela prisão a cultura da peça, mais precisamente o efeito viral em homens que conhecem a realidade da violência e projectam em César, Bruto, Cássio os princípios básicos das suas próprias vidas. Sem esta característica estaríamos perante um quase documentário do género "como encenar uma peça numa prisão". Mas nada disso. É carregado no espaço prisional o fantasma de uma Roma outrora poderosa e cuja a justiça era feita nas ruas. No final temos esta pérola de um dos "atores": depois de conhecer a arte sinto que esta cela é uma prisão. 4/5
Amour - Michael Haneke
Michael Haneke retrata aqui a sua geração no preâmbulo da morte. A forma como o faz é minimalista e cruel como que a dizer ao espectador que é assim, a hora em que nos sentimos derrotados pela vida chegará. Parece soar a pessimismo mas serve de base à reflexão de "nós perante a vida não somos nada". A componente religiosa não surge aprofundando assim ainda mais a agonia de Anne que depois de dois AVCs é reduzida a um fardo até pelo seu amor de uma vida. Perante este cenário importa perceber a resistência limite do seu marido que recusa entregar os destinos de Anne a um hospital satisfazendo assim o desejo desta. Mas para cumprir esse desejo temos outro lado também derrotado. O sentimento que sustentou o casamento de longa duração não chega para enfrentar aquilo que é notório: o fim de Anne e de uma vida a dois. A partilha do espaço, de gostos e o factor companhia conhecem o seu fim. Amour cala assim possíveis críticos que não viram com bons olhos a atribuição da Palma de Ouro de 2012. Não será para o autor deste blog filme do ano por uma questão geracional. Mas existe o reconhecimento de estarmos perante um momento cinematográfico que nos mostra a derradeira etapa da nossa existência. 5/5
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