13/10/13

Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer coisas que não pareçam o que são.

Miguel de Cervantes Saavedra

05/10/13

Em escuta



30/09/13

Sentir a humilhação


A derrota, a humilhação de Fernando Seara em Lisboa pode ter múltiplas leituras. Desde de um forte adversário até à fragilidade de um PSD a governar ao abrigo de um restrito e exigente programa financeiro. Por estes lados aponto acima de tudo para a irracionalidade das promessas assumidas. Desde de um túnel no eixo do saldanha até à redução de taxas e impostos municipais. Só aqui temos logo uma contradição. Com que dinheiro iria financiar o túnel ao mesmo tempo que reduziria os impostos? Numa altura em que o estado tem reduzido o financiamento às autarquias fica a pergunta: quem pagaria? As gerações futuras?
Creio que a derrota demonstra que uma a política de mercearia já não traz vitórias. Promessas frágeis, sem sustentação tiveram a sua quota parte de culpa neste resultado desastroso. Tudo o que surgia nos outdoors suava a uma ilusão que não foi seguida pelos eleitores. Para uma próxima pede-se alguma seriedade...

Em recuperação


Neil Blomkamp é um daqueles realizadores que consegue fazer um bom filme com pouco recursos financeiros. Foi assim na sua estreia: sem compromissos comerciais, um orçamento curto e uma criatividade em larga escala. District 9 (2009) conseguiu surpreender. Algo difícil no espaço da ficção científica já que na maior parte das vezes o compromisso das bilheteiras esmaga a tentativa de diferenciação. Veja-se o exemplo de Elysium onde parece já termos um Blomkamp "capturado" pelos grandes estúdios. Ficamos com o primeiro.
Em District 9 parece existir uma mensagem bastante política. Já que não será difícil fazer uma comparação entre os extra-terrestres que vivem clandestinamente num espaço perto das cidade e a frágil situação de uma das maiores calamidades do mundo: os refúgiados. Neil Blomkamp parece ter construído aqui uma metáfora em que percebemos o ódio, o mau estar perante aqueles que são considerados estranhos. As estâncias mundias parecem aqui pactuar ao afastar a estranheza para um espaço mais remoto e ignorar tudo o resto. Até neste género de filme, onde o contacto com a realidade exterior parece longínqua, é possível presenciarmos uma tentativa clara de consciencialização sobre um flagelo humanitário.

25/09/13


Fim da linha


A distorção do desporto através da figura de resultados combinados ou do doping pode assombrar e desacreditar qualquer desporto. Esvaziá-lo inclusive da sua essência, isto é, a promoção da vitória através do talento e do trabalho. Stephen Lee foi apanhado na prática de fixação de resultados entre 2008 e 2009. Nunca foi um jogador consistente, mas seguramente merecedor de figurar no top 10. A pena é pesada: 12 anos sem poder competir ao mais alto nível. Com 38 anos de idade, presenciamos muito provavelmente a sentença de morte de uma carreira que não merecia este desfecho.

Viagem a Tóquio - Yasujiro Ozu


E sessenta anos depois a estreia... Não é ironia, infelizmente. Portugal vê agora a distribuição comercial de um dos filmes mais aclamados do cinema. E como muito difícilmente serão encontrados espectadores, apenas um cinema foi escolhido para (re)visitar Yasujiro Ozu no grande écran. E é no Nimas que podemos assistir a um momento de rara beleza. Onde encontramos um cinema capaz de relatar uma história sem a força da imagem. Aliás, a imagem é esgotada na expressão das personagens. A mensagem, as dinâmicas narrativas assumem as rédeas de uma obra inesquecível e obrigatória.
Japão, pós-segunda guerra mundial. Um casal de idosos que habita no meio rural resolve visitar os filhos desde de há muito instalados na cidade. O encontro não corre da melhor forma. A atenção prestada é coarctada por uma vida profissional própria da cultura urbana que contrasta com o mundo rural onde a família, o respeito pelo patriarca, a dedicação prestada era regra. Os princípios culturais foram alterados com a mudança de um espaço industrializado, materializado por um novo conceito de organização social que acaba por moldar os comportamentos agora mais distantes e indiferentes em relação aos entes mais queridos. Veja-se, por exemplo a desobediência constante dos netos aos seus pais.
Yasujiro Ozu faz um olhar crítico ao progresso mas não procura o conflito. A resignação perante uma realidade de contrastes é a reacção que surge com uma naturalidade desconcertante no casal de idosos que não encontrou o devido calor que esperava. São quase como que expulsos para a sua origem já que não pertencem a este tempo. 5/5

Blue Jasmine - Woody Allen


O regresso de Woody Allen ao seu habitat natural, onde construiu grande parte da sua obra, e diga-se que é nos EUA que encontramos as suas melhores obras, é feito em grande estilo. Allen recupera aqui o seu registo mais dramático e confirma-nos que Cate Blanchett é uma artista de grande nível.
A história espelha os sinais dos tempos. A crise e o seu impacto na relação do indivíduo com o que o rodeia. Jasmine (Cate Blanchett) representa o lado da sociedade que procura o luxo sem questionar a sua origem. Quando assiste ao desmoronamento do império que sustenta a sua postura de insolência perante a camada mais pobre entra num abismo emocional que a conduz à casa da irmã onde encontra a antítese do seu mundo anterior. A partir daqui surge o esforço para alinhar a vida com a sua nova condição mas quando conhece um promissor jovem político vê a sua oportunidade para retornar ao conforto do seu passado.
Em termos de carreira, Jasmine não é sequer uma lufada de ar fresco na carreira do realizador da cidade da Big Apple. É sim uma etapa onde temos uma obra uns furos bem acima dos trabalhos feitos na europa. Se é verdade que Cate Blanchett carrgea o filme, facto é encontrarmos um Woody Allen capaz de construir um argumento que permite à actriz mostrar o seu talento em toda a linha. 3/5

Em escuta


Canal 2 - 3ªf às 22h50


A sexta season da série Mad Men arrancou ontem à noite no canal dois. Alguém sabia? Não me parece. É incompreensível a falta de comunicação perante a estreia de uma das melhores séries que surgiu no panorama televisivo nestes últimos anos. Sim, não se trata de obra para massas. Sim, não surge nas conversas de café. Em todo o caso merecia mais consideração para os seus seguidores.

10/09/13

Em escuta


Os Goldfrapp regressam, ou pelo menos tentam, aos primórdios da sonaridade que marcou a sua estreia no excelente Felt Mountain (2000). Não o fazem de forma pura no sentido de pretenderem recuperar a formula na sua totalidade. Existe aqui uma clara influência da sua carreira já considerável. Não se trata de repetir, mas sim de recuperar uma sonoridade completando-a com alguns traços da sua obra.

08/09/13

12/09


E o ano não poderia acabar sem Woody Allen, certo? Pois bem, desta vez temos o regresso ao drama. Neste espaço, esperamos uma obra em registo semelhante a Uma Outra Mulher (1988) ou Setembro (1987). Obras mais introspectivas que relacionam o espaço mais íntimo com as barreiras diárias impeditivas de determinadas realizações pessoais.

Steve McQueen - Parte III


A avaliar pelos ecos provenientes do munto da internet, Steve McQueen está novamente em grande forma nesta sua 3ª etapa da carreira. O tema explorado continua a ser o homem à procura da sua liberdade. Em Fome (2008), tinhamos a história dos prisioneiros do IRA e o seu confronto com o governo inglês. Shame (2011) mostrava até que ponto a obsessão sexual pode acorrentar um indivíduo destruíndo tudo aquilo que o rodeia. Agora teremos o problema da escravatura nos EUA. O estado de liberdade de um negro é abruptamente interrompido ao ser posicionado como um homem isento de direitos. McQueen tem uma tendência natural para assuntos difíceis. E não tem a pretensão de dar muitas respostas. Para quando a estreia em Portugal?

Um adeus?


Roger Federer parece estar nitidamente no fim de uma etapa recheada de glória. Não me insiro no grupo dos que consideram que é o melhor tenista de todos os tempos. Pois, para chegar a essa conclusão teríamos que primeiro definir um conjunto de critérios que permitessem chegar a esse resultado. E reunindo esses critérios creio não encontrarmos "o melhor do mundo". Acredito inclusive que Rafel Nadal possa igualar ou mesmo bater os records mais sonantes na era Federer como, por exemplo o número de Grand Slams. Inclusive o espanhol poderá amanhã no Open dos EUA conquistar o seu 13º título ficando a 4 do helvético. Prefiro assim pensar que estamos na presença de um dos melhores jogadores de ténis que já tivemos oportunidade de ver passar por um court de ténis. A sua consistência ficará como umas das imagens de marca. 
Segundo os entendidos, Federer elevou o nível de ténis para outro patamar. E para tentar contrariar essa hegemonia foi necessário que outros jogadores subissem um degrau para contrariar um domínio que se adivinhava difícil de combater. Por outras palavras, o ATP reduzido a um só nome foi quebrado por jogadores como Nadal, Djokovic, Murray que perceberam claramente que tinham de elevar os seus padrões de jogo para ganhar. Existirá um ténis antes de Federer e outro depois de Federer? Provavelmente sim.
Não é a primeira vez que temos o ex-número 1 num momento menos bom mas a diferença é que desta vez saiu do top 5 e poderá chegar ao final da época sem um título digno dos seus pergaminhos. Tal facto leva-nos à questão se estamos na presença de um mau momento ou se será o final de uma história. Federer parece estar numa página atrás dos seus mais directos adversários. E não acredito que possa avançar. Poderá sim ainda dar um ar da sua graça ao vencer um master. Mas um 18º título de um Grand Slam será mesmo muito complicado. Mas adorava estar enganado. Ver Federer jogar é um dos maiores prazeres que tenho enquanto adepto de um desporto tão especial.
Caso se confirmem as piores previsões, leia-se final de carreira, espero que, por muito difícil que seja a decisão, o suiço perceba o seu timing de saída. Ter um final de carreira longe do nível de jogo que apresentou ao longo de tantos anos não parece ser o caminho mais inteligente.

24/08/13

The Bling Ring - Sofia Coppola


Sofia Coppola oferece-nos o filme mais cool de 2013. Juventude, sedução, beleza, excesso, hedonismo... Ingredientes que encaixam numa cultura do vazio alimentada pelos media e que acaba por moldar e influenciar muitos comportamentos que procuram o seu momento de glória. A história é baseada em acontecimentos reais o que acaba por sustentar de forma positiva um argumento que poderia deslizar para um excesso de ficção tal as facilidades concedidas aos protagonistas.
The Bling Ring regista a história de um grupo de jovens pela casa dos 16/17 anos que se dedica a roubar casa de gente famosa. O objectivo passa pela aproximação de um modo de vida ostentado por um vestuário e acessórios só ao alcance de uma minoria. Com o passar do tempo, as facilidades concedidas não serão alheias, tornam o comportamento como um acto compulsivo que só conhecerá o seu fim quando entra em cena a polícia. Não é porém um filme de polícia e ladrões. Coppola não procura aqui criar um drama mas antes um quase comentário com uma dinâmica muito própria de um acontecimento que merece uma reflexão profunda. Falamos da ausência de valores, de uma ética de trabalho e de esforço para atingir determinados objectivos. Aqui temos uma mentalidade do "agora" sustentado por vias menos lícitas que poderão comprometer o futura de uma parte da geração. 3/5

Em escuta


A Gaiola Dourada - Rubben Alves


O trailer pode espelhar um filme de paródia sobre um casal de emigrantes em França. Nada disso. Presenciamos um daqueles casos não muito comuns de um produto vendável mas com qualidade. E essa qualidade encontramos na excelente combinação comédia-drama. Uma dinâmica que atira A Gaiola Dourada para fora da esfera de filme banal. Existiu claramente um trabalho de campo por parte de Rubben Alves para entrar no espírito do tipíco emigrante português que saiu do seu país natal à procura de outra qualidade de vida. O retrato que faz é fiel. Não caiu na tentatação de trabalhar apenas a superfíce saíndo antes à procura do interior, do que está por detrás da imagem apresentada no campo do social.
Joaquim de Almeida e Rita Blanco interpretam um casal sediado há muitos anos em França e que sonha com o regresso às suas raízes. Trabalhando ela em limpeza ele na construção civil, levam uma vida humilde e de resignação juntamente com os seus dois filhos. Procuram a todo o custo serem prestáveis perante os seus patrões, vizinhos e amigos. Até que um dia a materialização do seu sonho fica mais perto através de um testamento que lhes garante uma propriedade em Portugal e uma considerável fortuna. Mas a obrigação para com o outro poderá hipotecar tudo aquilo com que sempre sonharam. 3/5
Há três coisas que jamais voltam: a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida.

Provérbio chinês

15/08/13

As Vidas de Artur - Arthur Newman


Arthur Newman foi feliz na escolha de Collin Firth para um papel com um nível de exigência considerado. Diga-se que o papel lhe assenta que nem uma luva. O actor britânico tem uma tendência natural para uma melancolia que convence até o espectador mais céptico.
O filme faz-nos interrogar sobre a possibilidade de trocarmos de identidade social. A resposta vai no sentido que uma simples troca de nome não sendo acompanhada, por muito que o esforço esteja lá, por uma reestruturação do self não produz o efeito de uma mudança total. Os traços principais da personalidade já há muito estão alicercados. Como tal, o registo do "querer ser" não passa de um flash. O regresso ao real, a resignação dirão os pessimistas, é aqui uma situação irrevogável. Mas será que tem de ser sempre assim? Voltar ao ponto de partida? 3/5