"O carácter é como uma árvore e a reputação como a sua sombra. A sombra é aquilo que nós pensamos do carácter de alguém e a árvore é a coisa mesmo, the real thing".
09/02/14
12 Anos Escravo - Steve McQueen
Steve McQueen consegue aqui pisar o chão do mediatismo mais pelo tema que trata do que por uma mudança de rumo em termos artísticos. O tema escravidão não é assunto estranho ao realizador. As suas obras anteriores tinham como ponto central um espaço de liberdade limitado por uma questão política em Fome (2008) e por uma adição do foro sexual em Vergonha (2011). Com 12 Anos Escravo o termo encerra uma espessura história. Importa questionar se existiu uma vontade em criar uma trilogia sobre a Liberdade do Homem e as variações que a mesma pode assumir. Mas isso só tempo o dirá.
A história é baseada num caso verídico. Solomon Northup é um músico respeitado e admirado pela sociedade (séc. XIX) até ao dia em que se vê vítima num esquema de tráfego de esravos que o atira para um estado eslavagista. A sua posição de não livre remete-o para uma longa batalha rumo a uma liberdade já experimentada. Northup não se encaixa numa consciência servil como os seus pares, a sua consciência assenta na liberdade. Entramos aqui numa dialéctica do Senhor e do Escravo. A luta pela dignidade, pela liberdade de um homem que não nasceu escravo atinge aqui uma intensidade mais forte já que existe uma condição já vivida e que agora lhe é negada. A negação a que foi submetido é o motor de toda a narrativa. É ela que provoca toda a força da nossa personagem principal. O recuperar sua individualidade é a prioridade.
McQueen faz um relato sólido de uma situação raramente abordada já que geralmente a escravidão surge como uma situação inerente à própria raça. A carga emocional, quer positiva quer negativa, das personagens nucleares não é utilizada como um jogo de razões para que no final exista um vencedor e um derrotado. Existe antes um explanar de perspectivas que acabam por ser frutos de uma mentalidade social e económica. A dinâmica de acontecimentos faz com que exista posteriormente uma mudança na condição daqueles que eram vistos como dominados. E é este o triunfo de 12 Anos Escravo. Introduz um elemento diferenciador neste género e não procura criar um quadro de pseudo-justiça para agradar ao público. 5/5
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