Spike Jonze leva-nos a uma sociedade onde a tecnologia
assume um papel omnipresente na vida dos seus intervenientes. Existindo uma
clara devoção a uma plataforma tecnológica que apoia e sustenta (quase) todas
as vertentes do indivíduo. É como se a religião fosse aqui substituída por uma
entidade também invisível mas capaz de dar soluções a necessidades primárias
como a solidão. Temos assim a relação de dependência entre homem-tecnologia aprofundada.
A solidão, os problemas de comunicação entre o casal provoca
nas nossas personagens um sentido de fuga do meio humano através do recurso a
um sistema operativo promovido como uma figura digital capaz de preencher o
espaço do outro. A relação que se constrói é de experimentação a um novo espaço
para ambas as partes. Do lado do homem, o confronto com um meio não físico mas
que o faz sentir preenchido em termos sentimentais embora experienciando um
claro travo de expectativa para a exploração do plano físico que surge como uma
contradição inerente à própria natureza da relação. A outra parte,
aparentemente mais um sistema operativo como tantos outros, parece querer
ganhar vida própria ao procurar ressonância dos laivos emocionais do seu
parceiro. Revelando assim um lado orgânico que o diferencia de outros programas
meramente estanques nas suas funções.
Existe aqui um lado fantasioso que não saberemos se poderá
passar para o lado real. Trata-se da capacidade de um programa de computador
conseguir atender à solidão dos sentimentos e dar-lhes o devido feedback de
forma constante. Mas a ilusão de um preenchimento físico não passa disso mesmo.
Parece que Spike Jonze posiciona a sua visão no sentido de uma tecnologia com um papel pedagógico enquanto etapa de reflexão e de (re)construção do difícil puzzle dos
sentimentos, necessidades, medos, frustrações... Características só ao alcance da condição humana.
3/5

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